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Com mercado exponencial, cultivo de plantas de adubação verde oferecem benefícios além da fertilização do solo


Por Acsa Macena

Neste ano, a ECOARARIPE/PE e APASPI/PI comercializaram mais de R$13.900 em sementes de adubação verde, entre feijão de porco, feijão guandu, crotalária juncea e outros.

Campo consorciado com o algodão e feijão guandu (adubação verde) no Sítio Pajeú – Ipubi-PE, Sertão do Araripe – PE.

Diante da necessidade do manejo agroecológico do solo, a adubação verde se apresenta como um caminho a ser seguido.  O incentivo ao cultivo de diferentes plantas de adubação verde é uma das importantes estratégias do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia. Elas fixam o nitrogênio atmosférico nas raízes, além de reter cálcio, potássio e quantidades consideráveis de fósforo e magnésio nos tecidos vegetais.

Segundo o coordenador do Projeto/Diaconia, Fábio Santiago, a estratégia é apoiar a diversidade de produtos com potencial para a comercialização, na perspectiva do policutivo. Isso é fundamental para elevar o impacto de renda das famílias agricultoras que estão associadas aos SPGs/OPACs. Além disso, é uma das estratégias de manutenção da capacidade produtiva do solo ao longo do tempo.

“Inicialmente, foi incentivada a multiplicação em Unidades de Aprendizagem e Pesquisa Participativa (UAPs) e nos campos irrigados por gotejamento para a produção de sementes de adubação verde. A fase é atual é de expansão dessa produção para atender as famílias agricultoras do Projeto e um mercado latente. O valor agregado pelas sementes de adubação é elevado e faz parte da concepção do consórcio em prol da fertilização do solo. As plantas de adubação verde podem fixar entre 120 a 150 kg de nitrogênio/ha sem nenhum processo industrial que eleve a pegada de carbono. É usar plantas leguminosas para aumento de matéria orgânica e nutrientes essenciais no solo em prol do crescimento e desenvolvimento do algodão em consórcios agroecológicos”, explica.

Entre as principais plantas de adubação verde estão o feijão de porco, mucunas preta e cinza, feijão guandu, crotalária juncea, feijão lab lab e a cunhã. Junto às 7 organizações de base da agricultura familiar apoiadas no Semiárido, o Projeto busca consolidar mercados para esse segmento. De acordo com o consultor do Projeto/Diaconia, Hélio Nunes, tem sido criado um plano regional junto às 7 associações rurais de certificação orgânica participativa que são assessoradas em 6 estados e 7 territórios do Semiárido.

“A comercialização das sementes de adubação de verde se dá em cima uma demanda do mercado. Hoje tem muita gente migrando para o uso de plantas que têm o potencial de elevar a concentração de nutrientes no solo que são essenciais para o crescimento e desenvolvimento das plantas sem a necessidade de adubo químicos sintético. A estratégia que montamos junto aos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) foi de iniciarmos no Sertão do Araripe-PE, oferecendo em lojas que vendem produtos para a produção agropecuária. Temos feito a montagem de kits para uma venda mais direta ao consumidores e com quantidades a partir de 100g”, explica.

Só para se ter uma ideia do potencial de mercado para esse segmento, em 2022, a Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe (ECOARARIPE/PE) comercializou cerca de R$1.181,00 em sementes de adubação verde para multiplicação nos 7 territórios de abrangência do Projeto. Já neste ano de 2023, foram comercializados R$2.178,00 para a Agrobom Produtos Orgânicos, localizada em Petrolina-PE, e outra parte para o Instituto Molhando a Terra, de Serra Talhada-PE.

O proprietário da Agrobom, Jorge Bombonat, que recebeu a equipe técnica do Projeto, trabalha há 20 anos com insumos orgânicos para a agricultura. De acordo com ele, a escolha por esse segmento está relaciona ao fortalecimento da agricultura familiar local e a importância da adubação verde. Entre a principal compra está o feijão de porco, que segundo Bombonat, é o mais procurado na loja, seguido das mucunas e feijão guandu.

“A adubação verde é a forma mais econômica e viável de recuperar, manter e aumentar a capacidade produtiva do solo de uma forma econômica, eficaz e baixa pegada de carbono para o agricultor/a. Entendemos que o apoio do Projeto para esse segmento é o futuro para fertilização do solo. A agricultura familiar depende muito dessa adubação verde e a ECOARARIPE/PE está muito forte nesse segmento com seus associados/as produzindo e se fortalecendo cada vez mais. A tecnologia disponível no mercado é muito cara, mas com a adubação verde podemos produzir tanto quanto o convencional, mas de maneira limpa, alimentos livres de químicos sintéticos e  conservando a natureza e própria vida do agricultor/a”, explica.

Proprietário da Agrobom e sua esposa, na loja em Petrolina-PE.

Também neste ano, foram realizadas mais três comercializações, sendo uma para o estado de Brasília (R$46,00), outra para o estado do Piauí (R$150,00), ambas destinadas às pessoas que estão iniciando o plantio para garantir alimentos saudáveis para o consumo da família e a última para o evento de 15 anos de criação do Movimento Camponês Popular (MCP), cuja venda foi de 8.535,00.

De acordo com o secretário da ECOARARIPE/PE, Edjunho Tavares, a cada dia o mercado está procurando mais as plantas de adubação verde. Com a produção do campo de sementes irrigado por gotejamento no Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim-PE, espera-se atender melhor a essa demanda. Mas existem outros desafios que vão além da produção.

“Precisamos nos organizar melhor porque a gente pede uma estimativa de produção aos agricultores a agricultoras e ainda há uma dificuldade dessas informações chegarem. Precisamos ainda de um trabalho bem forte em cima disso. Outra coisa é o gerenciamento de estoque. Se tivéssemos a disponibilidade de um espaço físico adequado facilitaria muito a venda e o gerenciamento de estoque da produção”, explica.

Feijão de porco cultivado no campo irrigado por gotejamento para multiplicação de sementes. Assentamento Laranjeiras – Parnamirim, Sertão do Araripe-PE.

Já no território da Serra da Capivara-PI, a Associação dos/das Produtores/as Agroecológicos do Semiárido Piauiense – APASPI comercializou 150kg de feijão de porco para serem multiplicadas regionalmente para outros territórios (Sertão do Apodi-RN, Sertão do Cariri-PB e Sertão do Pajeú-PE) de abrangência do Projeto. Os ganhos iniciais para a APASPI/PI foi de R$3.000. Segundo o consultor técnico/Diaconia, Gean Bastos, as vantagens da comercialização do feijão de porco poderão ser sentidas de diferentes formas.

“O feijão de porco está ganhando espaço. Estamos percebendo que os agricultores e agricultoras estão gostando do resultado. É uma cultura que se tiver mercado, além de ajudar no complemento da renda, ainda traz a vantagem de melhorar o solo dos consórcios através da fixação de nitrogênio e incorporação da matéria orgânica. Esse é um dos produtos que está começando a ganhar espaço nos consórcios agroecológicos”, explica.

A agricultora Valquíria Viana, ligada à APASPI-PI, foi uma das primeiras do território a comercializar o feijão de porco, fornecendo 30kg. Mas a expectativa também é de estreitar os laços com o mercado orgânico voltado as sementes de adubação verde. “Seria muito importante termos a comercialização de toda nossa produção porque é um produto que não é consumido pelo ser humano. Então se não tiver comercialização é perca para nós, apesar de ser uma planta de adubação verde  que distribui nutrientes para as outras plantas, mas precisamos da comercialização para termos retornos financeiros”, diz.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da Inter-American Foundation (IAF), da V. Fair Trade e o Instituto Lojas Renner. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó.  No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.