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Duas Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) são inauguradas no Sertão do Pajeú-PE e Sertão do Cariri-PB


Por Acsa Macena

Além da agregação de valor aos demais produtos dos consórcios agroecológicos, as UBAs ampliarão a oferta de alimentos saudáveis e sementes de adubação verde para a sociedade.

Inauguração da UBA da ASAP-PE. Assentamento Santa Rita, Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú-PE.
Inauguração da UBA da ACEPAC/PB. Vila Rural Lafayette, município de Monteiro-PB, Sertão do Cariri-PB.

Um novo ano de conquistas se inicia para agricultoras e agricultores do Sertão do Pajeú-PE e Sertão do Cariri-PB. A inauguração de duas Unidades de Beneficiamento de Alimentos, as UBAS, irá contribuir para a agregação de valor dos demais produtos dos consórcios agroecológicos com o algodão, além de ampliar a oferta de alimentos saudáveis para a sociedade.

Com a participação das famílias agricultoras, representantes da Veja, sindicatos, autoridades locais e outros, os eventos celebrativos aconteceram no final de dezembro de 2023 no Assentamento Santa Rita, município de Serra Talhada-PE, e na Vila Rural Lafayette, município de Monteiro-PB.

As UBAs processarão nove linhas de alimentos com certificação orgânica participativa. Entre eles está o tahine, a pasta de amendoim, óleo de gergelim, amendoim cru e torrado, gergelim fracionado, feijão, milho ensacado e outros, além das sementes de adubação verde, como feijão de porco, feijão guandu, crotalária juncea e outras.

Inauguração da UBA da ACEPAC/PB. Vila Rural Lafayette, município de Monteiro-PB, Sertão do Cariri-PB.

Para a agricultora Maria Edileuza, ligada à Associação de Certificação Participativa dos Produtores Agroecológicos do Cariri Paraibano (ACEPAC/PB), espera-se ampliar a produção agroecológica no campo. “Minha expectativa é que venha bastante resultado, muita venda, e que os agricultores consigam produzir muito para a gente seguir em frente e pra fazer dar certo”, afirma.

Já a presidente da ACEPAC/PB, Amanda Procópio, explica que a ampliação do acesso a mercados para os produtos que serão beneficiados na UBA é um fator importante para que a iniciativa dê certo. “Agora poderemos processar esses produtos, mas temos que alcançar os mercados para que eles sejam escoados. Temos algumas parcerias onde a ACEPAC/PB estará em dois pontos de comercialização, na Casa da Economia Solidária em Cabaceiras-PB, e na Casa da Economia Solidária em Sumé-PB, mas a gente ainda precisa alcançar mais pontos de comercialização e mais mercados”, diz.

Inauguração da UBA da ACEPAC/PB. Vila Rural Lafayette, município de Monteiro-PB, Sertão do Cariri-PB.

Mais do que beneficiar e comercializar a produção, o tesoureiro da Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP/PE), Claudevan Santos, observa que um dos principais ganhos do funcionamento das UBAs é o valor agregado que será proporcionado para a mulher e homem do campo.

“Existem as famílias garantidoras para a UBA que entregam a matéria-prima. Ao chegar na UBA, essa matéria-prima é pesada e se for o gergelim e amendoim, a família já recebe R$10 pelo kg de seu produto. Ao fazer todo o processo de beneficiamento a partir daquele matéria-prima e quando o produto é vendido, a família ainda recebe um valor agregado em cima daquele produto. Então a alegria da família é saber que além de entregar o produto, recebe um valor na hora e depois ainda recebe outro com a venda do produto”, explica.

Inauguração da UBA da ASAP-PE. Assentamento Santa Rita, Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú-PE.

Tal pagamento antecipado só é possível devido à existência dos fundos para a autonomia financeira e que possibilitam a compra e o processamento da produção, a exemplo do Fundo Rotativo Solidário (FRS), que funciona como uma fonte de microcrédito de gestão própria e que visa contribuir para superar gargalos produtivos e comercialização. Além do mais, após a comercialização dos produtos, o Fundo de Incentivo à Autonomia Financeira (FIAF) das organizações de base também será fortalecido, pois vem sendo alimentado pela doação de uma pequena fração da comercialização dos produtos com valor agregado pela certificação orgânica participativa pelas próprias famílias agricultoras associadas aos SPGs/OPACs.

No caso da ACEPAC/PB, o assessor técnico da Arribaçã, Almir Freitas, observa a importância da criação desses fundos. “Cerca de 4% do valor dessa venda fica para o FIAF da ACEPAC/PB, que ajuda a fortalecer toda essa dinâmica de funcionamento e dá autonomia financeira para a instituição para fazer todo o giro da certificação orgânica participativa e todos os processos do SPG/OPAC”, diz.

Já o assessor técnico de Diaconia, Erickson Macena, percebe que o maior envolvimento da juventude será fundamental para o fortalecimento da ASAP/PE. “Os próximos passos correspondem à capacidade que a ASAP/PE deve ter de estimular novas famílias para que seja possível fazer produtos em maior escala, e que elas saibam da importância desses alimentos para a própria vida, considerando o seu valor nutricional, além de gerar renda através da agregação de valor. Além disso, é fundamental envolver a juventude nesse processo para fortalecimento e regeneração desse corpo”, afirma.

Inauguração da UBA da ASAP-PE. Assentamento Santa Rita, Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú-PE.

As duas associações rurais de certificação orgânica participativa que inauguram suas UBAs são assessoradas pela Diaconia, que conduziu um amplo programa de formação para que esse momento pudesse ser realizado e refletido em benefícios também para a população. Segundo observa Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, a estratégia das UBAs promoverá uma circulação de riqueza na base da pirâmide brasileira.

“Ganha a sociedade, devido à escolha e interesse por alimentos mais saudáveis e porque faz com que essas organizações de base entrem no mercado formal, gerando mais renda, fazendo com que a agregação de valor perpasse pela agricultura familiar. Por outro lado, é extremamente importante para o meio ambiente, haja vista que o algodão consorciado com outras culturas tem uma baixa pegada de carbono, fazendo com que diminua a emissão de gases de efeito estufa, contribuindo assim para mitigação das mudanças climáticas”, afirma.

Ainda segundo Santiago, o desafio agora é apoiar a equipe de gestão das UBAs dos SPGs/OPACs, mediante a qualificação das ferramentas de controle e com a continuidade do processo de formação pela equipe de assessoramento técnico do Projeto. “A formação será pedagógica a partir do ‘aprender fazendo’. A ideia é que até 2026 as UBAs estejam com uma gestão própria, autônomas financeiramente, transparente da informação e fazendo modelos de negócios. É o resultado que esperamos, pois haverá valorização dos produtos dos consórcios agroecológicos. É uma estratégia de alavancar a maior circulação de riqueza pelas associações de base da agricultura familiar.  É fortalecer o associativismo de mercado”, explica.

Inauguração da UBA da ASAP-PE. Assentamento Santa Rita, Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú-PE.

Para a engenheira agrônoma da Veja, Valdenira Rodrigues, que participou das inaugurações das duas UBAs, é importante considerar a existência de um valor afetivo na produção desses alimentos, assim como as potencialidades da certificação orgânica participativa que neles estão envolvidas. “Além do valor de dinheiro, olhar o valor afetivo, o valor emocional das pessoas chegarem ao supermercado e verem seu produto nas colunas de produtos diferenciados, porque são orgânicos, eu acho que o valor afetivo e satisfação vai contar muito também”, observa.

Trabalho que também é reconhecido pelo presidente da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Estado da Paraíba (FETRAF – PB), Valdenício Herculano. “Nós temos dificuldades na nossa região de produzir e certificar a nossa produção. Já os agricultores e agricultoras que estão dentro da ACEPAC/PB estão produzindo algodão, hortaliças, gergelim, todas as culturas da agricultura familiar, certificando e garantindo um mercado justo. Isso é fundamental para o engrandecimento da agricultura familiar”, afirma.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da Inter-American Foundation (IAF), da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó.  No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.