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Em Alvorara do Gurguéia-PI, primeiro grupo local para transição à certificação orgânica participativa é formado para produção de alimentos saudáveis


Por Acsa Macena

Início do plantio de culturas em Alvorada do Gurguéia. UAP do Assentamento Cascavel.

Com o início das primeiras chuvas na região semiárida do Piauí, aumenta -se a expectativa para o plantio das culturas, principalmente para quem vive da agricultura familiar. No município de Alvorada do Gurguéia-PE, famílias agricultoras plantaram pela primeira vez o algodão consorciado com culturas alimentares e plantas de adubação verde a partir da inserção no modelo que liga produção e comercialização através de um coletivo social, a Associação dos/das Produtores/as Agroecológicos/as do Semiárido Piauiense (APASPI).

A primeira área plantada (0,8 ha) foi a do agricultor Antônio Silva, que reside no Assentamento Cascavel, local onde foi implantada a primeira Unidade de Aprendizagem e Pesquisa (UAP) em Alvorada do Gurguéia e que servirá de referência para apoiar as 8 famílias que integram o grupo de produção. Além do algodão, foram plantados milho, feijão, gergelim e o feijão de porco, que é uma planta de adubação verde capaz de fixar o nitrogênio atmosférico nas raízes, além de reter cálcio, potássio e quantidades consideráveis de fósforo e magnésio.

 “Essa é a primeira vez que realizo o plantio orgânico. Meu pai já plantava algodão no modo convencional e eu já plantei milho e feijão, só não conhecia o feijão de porco. Espero que dê tudo certo para seguirmos em frente. Me sinto prazeroso em saber que minha área é a primeira UAP da APASPI aqui no nosso município. Quero que a produção aumente e que mais gente tenha esse incentivo”, afirma.

De acordo com o consultor da Diaconia, Gean Bastos, a formalização do grupo local de produção que é ligado à APASPI e realizará a conferência da qualidade orgânica em Unidades Familiares Produtivas (UFPs) é resultado de um trabalho de mobilização iniciado ainda em 2024.  Sendo assim, a formação para o plantio na primeira UAP onde o consórcio com o algodão será implantado aconteceu na última semana de janeiro/2025, diante do cenário favorável das primeiras chuvas. “O objetivo agora foi reunir o grupo que já havia sido articulado anteriormente, assim como implantar a UAP para formação das pessoas no manejo dos consórcios agroecológicos. Também realizaremos formações futuras com esse grupo”, explica.

Jonilson Pereira (APASPI) utiliza plantadeira durante formação com agricultoras e agricultores em Alvorada do Gurguéia-PI. Assentamento Cascavel.

No cultivo de base agroecológica, existem cinco práticas que não podem ser realizadas e que impedem a certificação orgânica participativa. São elas: uso de defensivos e fertilizantes químicos sintéticos; sementes transgênicas; uso do fogo como prática do cultivo; uso inadequado de resíduos sólidos nas Unidades Familiares Produtivas (UFPs). Segundo o presidente da APASPI, Jonilson Sousa, é fundamental que as novas famílias agricultoras tenham acesso a esse conhecimento. “Nessa primeira formação de grupo, juntos e juntas de nossas parcerias, levamos o conhecimento sobre esse processo que se diferencia do formato de produção com veneno e promove a agregação de valor aos produtos dos consórcios agroecológicos. A APASPI tem o objetivo de compartilhar esse conhecimento para essas famílias do Gurguéia com o objetivo de melhorar a qualidade de vida delas e levar alimentos saudáveis para quem vai consumi-los”, explica.

Já segundo a agricultora Valquíria Viana, secretária da APASPI, o grupo de produção local contribuirá para a diversificação de produção agroecológica e servirá de referência para outros territórios. “As oportunidades que essas famílias terão a partir da inclusão na APASPI é agregação de valor dos produtos, certificação orgânica e a possibilidade de outras parcerias no projeto”, afirma.

Durante a formação, uma das tecnologias poupadoras de mão de obra que integra a estratégia do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia, foi a plantadeira. Ela é utilizada pela agricultura familiar para otimizar a utilização das sementes, melhorar os arranjos de plantas por metro linear e evitar o raleamento, conforme explica Valquíria. “É muito importante utilizá-la porque agiliza a plantação e deixa a planta com a quantidade de semente correta na cova e o espaçamento correto”, diz.

A facilidade do uso da plantadeira foi confirmada pela agricultora Risalva Dias, que utilizou a tecnologia pela primeira vez. “Achei muito útil e de fácil manuseio, tanto para os homens quanto para as mulheres desenvolverem com mais praticidade e menos esforços a atividade de plantação. As minhas expectativas é cada dia poder ter um melhor aprendizado e mais conhecimento sobre trabalhar com produtos orgânicos e poder desenvolver com ajuda da assessoria técnica uma boa alimentação e a produção de algodão. Isso vai trazer um melhoramento na renda familiar para garantir mais qualidade e praticidade, ou seja, o nosso sustento”, explica.

Participantes da formação com agricultoras e agricultores em Alvorada do Gurguéia-PI. Assentamento Cascavel.

Já o agricultor Francisco Cortez viu pela primeira vez a plantadeira e tem boas expectativas com a safra desse ano. “O dia de formação foi um aprendizado muito grande porque nunca tinha visto plantar daquele jeito e com aquela máquina. Temos grandes expectativas dentro da APASPI e o cuidado de participar desse Projeto porque eu acredito que vai dar certo, apesar da chuva aqui ser descontrolada. Após o plantio, nunca mais choveu em cima da terra. Só teve sereno. Mas temos expectativa boa”, afirma.

Participantes da formação com agricultoras e agricultores em Alvorada do Gurguéia-PI. Assentamento Cascavel.

A APASPI é uma das 7 organizações de base da agricultura familiar apoiadas pela Diaconia no Semiárido com o objetivo de promover o avanço da renda digna através da comercialização de produtos que levam o selo brasileiro orgânico. Com a inserção do primeiro grupo de produção em Alvorada do Gurguéia-PI, espera-se promover a experimentação e a disseminação do conhecimento do algodão em consórcios agroecológicos na região e que as 8 famílias agricultoras possam ir aprendendo fazendo e inserindo-se à comercialização.

Segundo Fábio Santiago, coordenador do Projeto/Diaconia, a chegada no Vale do Gurguéia é uma estratégia que amplia as possibilidades de entrada de novos grupos de produção no Sistema Participativo de Garantia (SPG) da APASPI.

“Fizemos inicialmente uma apresentação para os agricultores e agricultoras, com a presença dos poderes públicos locais (prefeito, secretários/as e membros do parlamento) e representantes de sindicato, cooperativa e empresas da inciativa privada. Em seguida, a APASPI e consultor de Diaconia fizeram as primeiras formações para implementação da Unidade de Aprendizagem e Pesquisa (UAP) e entendimentos sobre o funcionamento do SPG da APASPI. Agora, foi a hora de implementar uma área de algodão consorciada à luz da certificação orgânica participativa. É nessa área que acontecerão as formações dos demais do grupo de produção e outros/as agricultores/as. A equipe da APASPI que realizou essa formação é um resultado na apropriação do conhecimento e que vem sendo disseminado à luz de uma linguagem de agricultor/a para agricultor/a. Estamos bem felizes, pois é possível perceber que o conhecimento está sendo expandido para novas regiões e ampliando a escala da certificação orgânica participativa. Vamos continuar acompanhando os processos no Vale do Gurguéia”, afirma.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó.  No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.