Rodada de negócios em Recife-PE conecta organizações da agricultura familiar do Semiárido a novos mercados de produtos orgânicos
Por Acsa Macena
Evento reunirá representantes da agricultura familiar de 7 estados do Semiárido, com estimativa de oferta de produtos com certificação orgânica participativa como pluma de algodão e caroço, frutas de época, sementes de adubação verde, sementes de espécies da Caatinga, além de produtos como tahine, pasta de amendoim e óleo de gergelim.

No Semiárido do Nordeste brasileiro, a agricultura familiar tem dado importantes passos rumo a um modelo de produção sustentável, socialmente justo, diversificado e economicamente viável. Impulsionadas pela crescente demanda da sociedade por produtos com certificação orgânica, organizações de base vêm fortalecendo sua atuação em diferentes cadeias produtivas.
Entre elas estão o algodão, produtos beneficiados do amendoim e gergelim, como tahine, óleo de gergelim e pasta de amendoim, frutas de época e sementes de adubação verde, além das sementes de árvores da Caatinga, que ganham relevância no enfrentamento às mudanças climáticas.
É nesse contexto que será realizada, no dia 3 de julho, uma rodada de negócios no Recife (PE), reunindo agricultores e agricultoras familiares de 9 associações rurais de certificação orgânica participativa do Semiárido brasileiro, distribuídas em 7 estados. Elas são responsáveis pelo funcionamento dos Sistemas Participativos de Garantia (SPGs), que conferem a qualidade orgânica nas Unidades Familiares Produtivas (UFPs) na geração do selo brasileiro orgânico. São elas: ECOARARIPE/PE, ASAP/PE, ACOPASA/RN, ACOPASE/SE, Flor de Caraibeira/AL, APASPI/PI, ACEPAC/PB, ACEPI/CE e ACEPA/CE. Dessas, sete são assessoradas pela ONG Diaconia (PE, RN, AL, SE, PI e PB) e duas pela ONG Esplar (CE).
O evento tem como objetivo conectar tais organizações da agricultura familiar a potenciais empresas e parceiras, promovendo oportunidades de comercialização.
A agricultora Adeilma Silva, presidente da ECOARARIPE-PE, destaca a importância do evento como uma vitrine para os produtos com o selo brasileiro orgânico. “Estamos organizando todo o material disponível para apresentar nesse evento. Espero que possamos realizar boas negociações e formar parcerias duradouras”, afirma.

Adeilma Silva (ECOARARIPE-PE) segura o feijão ensacado em campo consorciado de algodão com culturas alimentares. Sítio Baixa, município de Santa Cruz/PE. Sertão do Araripe.
Do Alto Sertão Sergipano, a agricultora Gedeanes Santos, da ACOPASE-SE, vê na rodada uma chance de diversificar mercados: “Espero encontrar compradores/as para produtos como o feijão de porco. Vejo essa rodada como uma oportunidade real de abrir um novo leque de possibilidades para a nossa produção”.

Feijão de porco (semente de adubação verde) e tahine (produto da Unidade de Beneficiamento de Alimentos – UBA) produzidos pela ACOPASE-SE.
Já a agricultora Maria Sueli Silva, da ACEPAC-PB, acredita que o encontro representa um passo decisivo para o fortalecimento da rede de comercialização no Semiárido. “Espero que os/as compradores/as gostem dos nossos produtos e possamos abrir portas para novos mercados”, declara.
Do alto Sertão de Alagoas, Angelina Barreiros, da Flor de Caraibeira-AL, também afirma que o evento é uma oportunidade para apresentar o potencial da agricultura familiar e da diversidade de produtos dos consórcios agroecológicos: “representa uma oportunidade essencial para expor e expandir nossa produção, promovendo a comercialização de forma justa, solidária e sustentável”, afirma.

Sementes de árvores da Caatinga produzidas pela ECOARARIPE-PE.
A rodada também representa uma estratégia para garantir maior autonomia e sustentabilidade para os grupos organizados, que ainda enfrentam desafios significativos relacionados à comercialização, estruturação logística e visibilidade no mercado. Segundo Grazielle Cardoso, gerente do Programa Raízes da Caatinga da Iniciativa para o Comércio Sustentável (IDH), a rodada de negócios servirá para inaugurar uma nova etapa de conexão estruturada entre as famílias inseridas nos SPGs e o mercado formal.
“Acreditamos que esse encontro tem potencial para gerar parcerias comerciais concretas, mas também para promover uma escuta qualificada sobre as exigências, tendências e oportunidades do mercado. Mais do que vendas pontuais, o importante é fomentar relações de médio e longo prazo baseadas em confiança, regularidade e valorização da produção agroecológica do Semiárido. Vemos essa aproximação como estratégica para consolidar os SPGs como instrumentos legítimos de garantia da qualidade e da origem dos produtos”, observa.

Equipe da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ACOPASA/RN e assessoria técnica (Diaconia). Assentamento Ursulina, município de Caraúbas-RN. Sertão do Apodi-RN.
Para Janaina Fragoso, diretora executiva do Instituto Ibi de Agroecologia (IBIÁ), o encontro será uma oportunidade de divulgação dos produtos em território nacional, do desenvolvimento de rotas e circuitos de comercialização, além de representar o início de construção de uma rede de SPGs. “Acredito que conectar esses SPGs com empresas que valorizam a economia solidária e a agricultura familiar, ampliará um circuito de SPGs que já foi iniciado e que só tem tendência a aumentar, gerando uma circulação e comercialização de produtos com o selo brasileiro orgânico”, afirma.

Colheita do umbu pela agricultora Ana Lucia (ASAP/PE) no Sitio Lago de Dentro. Município de Itapetim/PE.
Nesse sentido, criar conexões estratégicas é essencial para garantir que o esforço feito no campo se traduza em oportunidades concretas para a agricultura familiar, conforme explica Márcio Baptista, consultor do Projeto/Diaconia na área de acesso a mercados.
“Depois de tanta dedicação no campo, é imprescindível estabelecer parcerias estratégicas que garantam o escoamento da produção com preços justos e sustentáveis para os agricultores e agricultoras. É fundamental que eles e elas possam permanecer no campo, produzindo alimentos que de fato nutrem e abastecem as cadeias de forma responsável. Além disso, precisamos ouvir mais os(as) consumidores(as) e os(as) comerciantes, e esse evento cria justamente esse espaço de diálogo e conexão”, afirma.
De acordo com Gean Bastos, o território da Serra da Capivara-PI está engajado para acessar novos mercados, onde se destaca o potencial para as sementes de árvores da Caatinga. “Esperamos que seja um momento para abrir portas para novos mercados para os produtos da agricultura familiar. Estamos nos organizando para levar o que temos de potencialidades para comercialização”, afirma.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que fortalece a rede de comercialização de produtos com selo orgânico no Semiárido, a rodada de negócios oferece às empresas uma oportunidade concreta de associar suas marcas a valores de alto impacto social e ambiental. Assim, apoiar a agricultura familiar significa investir na redução da pobreza, na justiça de gênero, na valorização do campo e na produção sustentável, com baixo impacto de carbono e contribuição direta para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Com parcerias firmadas desde 2018 para comercialização da pluma do algodão com a rede de SPGs/OPACs do Semiárido, Carlos Rigolo, coordenador de Projetos de Impacto Socioambiental da Veja Fair Trade, explica que o comércio justo é a base que sustenta e dá sentido a esse ecossistema.
“O comércio justo garante que o agricultor e a agricultora possam se planejar, produzir e comercializar alimentos com segurança, sabendo que terão uma remuneração justa pelo seu trabalho. Essa previsibilidade é essencial para fortalecer as organizações de base, ampliar a autonomia dos territórios e manter viva a agricultura familiar. Acreditamos que fortalecer outros produtos que levam o selo orgânico para além do algodão é um passo essencial para ampliar a autonomia das famílias e abrir novos caminhos de comercialização para toda a riqueza que brota da Caatinga”.
Certificação orgânica participativa em foco – Há 7 anos, a ação regional de apoio aos 7 Sistemas Participativos de Garantia (SPGs), legalmente representados pelos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs), que são associações rurais de certificação orgânica participativa, tem sido coordenada pela Diaconia no âmbito do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos. A iniciativa, atualmente em sua terceira fase (2025–2027), tem como objetivo ampliar o acesso a mercados diferenciados e valorizar a diversidade da produção agroecológica no Semiárido. A nova etapa surge após um ciclo inicial voltado ao aprimoramento produtivo (2018–2022) e uma segunda fase (2022–2024) dedicada ao fortalecimento organizacional.
Essa rede de coletivos sociais de agricultores e agricultoras familiares atuam com base em princípios de controle social e responsabilidade solidária. É através do funcionamento dos SPGs/OPACs que é conferido o selo de certificação orgânica previsto pela legislação brasileira. A certificação orgânica participativa permite que produções, organizadas de forma coletiva e horizontal, tenham acesso a mercados de maior valor agregado, incluindo feiras locais, supermercados, lojas e vendas diretas, entre outras.
Atualmente, a rede de SPGs/OPACs do Semiárido já comercializa a pluma do algodão agroecológico para a Veja Fair Trade, mas a meta é ir além. Com estimativas apontando um potencial produtivo superior a R$ 725.231 a ampliação do acesso a novos mercados para outros produtos orgânicos tem se tornado prioridade.
É nesse contexto que a Diaconia e seus parceiros organizam uma rodada de negócios voltada exclusivamente para os produtos das famílias agricultoras do Semiárido. Segundo Fábio Santiago, coordenador do Projeto/Diaconia, espera-se apoiar os SPGs/OPACs em novas parcerias, negociações, além de agregar valor e impulsionar a renda desses coletivos sociais.
“A rodada de negócios surgiu da demanda dos agricultores e agricultoras em ampliar as oportunidades de negócios para os outros produtos. Estamos na verdade propondo um exercício para a organização da capacidade produtiva, logística e gestão da informação e comercialização de produtos com o selo brasileiro orgânico. Além disso, a precificação pelos SPGs/OPACs. A rodada é uma estratégia de colocar na linha de frente os coletivos sociais com as empresas. É criar vínculos de compra e venda, confiança, parceria, logística e regularidade. Espera-se com isso dar visibilidade as diversas possibilidades de comercialização pelos SPGs/OPACs. Com isso, avançando à renda digna dos agricultores e agricultoras”, afirma.
Ainda segundo Santiago, será um momento histórico na caminhada dos SPGs/OPACs. “A ideia é fazer um evento bem prático, em mesas temáticas, onde uma dupla de representantes dos SPGs/OPACs terá a informação estruturada, perpassando por preço, quantidade, disponibilidade, informação nutricional, selo brasileiro orgânico, logística, entre outras. Será um momento de construção de negócios com os SPGs/OPACs. Isso é fundamental para alargar a base de acesso a novos mercados”, considera.
Confira a programação completa:


Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó. No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.
