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Quando a produção ganha valor: Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) fortalece a agricultura familiar no Sertão do Pajeú/PE


A experiência da Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP), com apoio da Diaconia, revela como a agroecologia, a certificação orgânica participativa e a organização coletiva vêm reposicionando a agricultura familiar no Semiárido, abrindo caminho para novas cadeias produtivas e para a geração de renda digna.

No semiárido pernambucano, a agricultura familiar sempre foi marcada por uma relação profunda com a terra e pelo desafio permanente de produzir em um ambiente de chuvas irregulares e longos períodos de estiagem. Ao longo de décadas, agricultoras e agricultores desenvolveram estratégias de convivência com o semiárido que combinam saberes tradicionais, diversidade produtiva e redes comunitárias. Ainda assim, a permanência no campo foi, historicamente, ameaçada por um modelo econômico que desvaloriza a produção familiar, concentra renda nas etapas finais da cadeia produtiva e impõe barreiras quase intransponíveis para quem produz em pequena escala.

Foi nesse contexto que a agroecologia se consolidou, no Sertão do Pajeú-PE, não apenas como um modo de produção, mas como um projeto político e social. A transição agroecológica, impulsionada por organizações da sociedade civil com os agricultores e agricultoras, passou a oferecer respostas concretas às limitações do modelo convencional, promovendo a diversidade de cultivos, a recuperação do solo, a eliminação de insumos químicos sintéticos e o fortalecimento da autonomia das famílias agricultoras. No entanto, com o amadurecimento desse processo, tornou-se cada vez mais evidente que produzir de forma agroecológica, por si só, não garantia renda suficiente nem estabilidade econômica. Era preciso avançar para além do roçado, reorganizando também as formas de comercialização e agregação de valor.

É nesse contexto que se insere o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia. Desde 2017, o projeto atua no fortalecimento de 7 Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) em 6 estados e 7 territórios na região semiárida do Nordeste, onde agricultores e agricultoras conferem a qualidade orgânica em Unidades Familiares Produtivas (SPGs), à luz da legislação dos orgânicos, na perspectiva da geração do selo brasileiro orgânico em produtos agrícolas. A responsabilidade jurídica de funcionamento dos SPGs é dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânica/OPACs, que são associações rurais de certificação orgânica participativa. No Sertão do Pajeú-PE, esse trabalho se materializa no apoio à Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP) (SPG/OPAC), que reúne agricultores e agricultoras de diferentes grupos de produção de municípios em torno de um projeto comum: produzir alimentos saudáveis, fortalecer a identidade da marca da organização social nos produtos com certificação orgânica participativa e construir caminhos para impulsionar a geração de renda que garantam dignidade e permanência no campo.

A escolha do algodão como cadeia estruturante do projeto não foi aleatória. O algodão agroecológico com certificação orgânica participativa, cultivado em consórcios com outras culturas, historicamente apresentou melhor preço e maior estabilidade de mercado quando comparado a outros produtos agrícolas da região. No entanto, mesmo inserido em circuitos de comércio justo, o algodão segue, em grande medida, a lógica das commodities. Ele é comercializado como matéria-prima e transformado por empresas que detêm o capital industrial, levando ao mercado final produtos com marcas que não representam quem plantou. Esse limite estrutural sempre esteve presente na reflexão da equipe do projeto e das organizações parceiras.

Segundo Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos (Diaconia), esse foi um ponto decisivo para a redefinição das estratégias ao longo do tempo. Para ele, embora o algodão tenha cumprido um papel fundamental na organização inicial das famílias agricultoras e no fortalecimento dos SPGs/OPACs, era necessário avançar. “O algodão é consorciado com outras culturas e, historicamente, é vendido por um bom preço, mas continua sendo uma commodity. Ele é uma matéria-prima que será manufaturada e levará a marca de outra empresa”, explica. A partir dessa constatação, o projeto passou a investir de forma mais sistemática na estruturação de outras cadeias produtivas, capazes de carregar a marca da agricultura familiar e devolver aos agricultores e agricultoras o valor agregado do processamento.

Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos (Diaconia), no campo de multiplicação de sementes da agricultora Joana Darck/ASAP-PE, Assentamento Jacu, Sertânia/PE.

A lógica dos consórcios agroecológicos sempre esteve no centro dessa estratégia. Nos roçados, o algodão nunca é cultivado sozinho. Ele divide o espaço com culturas como gergelim, amendoim, girassol, feijão, milho e sementes de adubação verde, entre outras, que cumprem múltiplas funções: garantem diversidade alimentar, melhoram o solo, reduzem riscos climáticos e ampliam as possibilidades de renda. Durante muito tempo, no entanto, esses produtos não encontravam mercados estruturados. Vendidos in natura, sem beneficiamento e sem identidade, acabavam sendo escoados a preços baixos, frequentemente por meio de atravessadores que se apropriavam do valor agregado.

Visita da cooperação alemã Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), ao campo de multiplicação de sementes da agricultora Joana Darck/ASAP-PE no Assentamento Jacu, em Sertânia, Sertão do Pajeú/PE.

A ausência de estruturas locais de processamento limitava o potencial econômico dessas culturas. Mesmo alimentos com alto valor nutricional, como o gergelim e o amendoim, eram tratados apenas como matérias-primas, sem diferenciação no mercado. Foi a partir desse diagnóstico que se consolidou a aposta nas Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) como uma resposta concreta às desigualdades das cadeias produtivas. As UBAs surgem, assim, como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da marca/identidade da agricultura familiar, articulando produção, organização social, certificação orgânica participativa e acesso a mercados.

Para Fábio Santiago, o papel central das UBAs apoiadas pelo projeto/Diaconia é exatamente avançar na estruturação dessas outras cadeias produtivas. “No caso do gergelim, do amendoim, do girassol, do feijão, do milho e das sementes de adubação verde, esses grãos passam pela unidade de beneficiamento e avançam na cadeia de valor. O gergelim vira óleo, pasta (tahine), produto fracionado; o amendoim na pasta; o girassol é fracionado e transformado em óleo; as sementes de adubação verde (feijão de porco, crotalária juncea, feijão guandu, cunhã, entre outras), são selecionadas, embaladas e rotuladas, detalha. O que diferencia esse processo é o fato de que todo o beneficiamento leva a marca da agricultura familiar, representada pela ASAP/PE, com certificação orgânica participativa e identidade territorial.

Processamento dos produtos dos consórcios agroecológicos na Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA), em Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú/PE.

A certificação orgânica participativa, construída no âmbito dos SPGs/OPACs, é um elemento central dessa trajetória. Diferente dos modelos tradicionais de certificação orgânica, baseados em auditorias externas e altos custos, os SPGs/OPAcs funcionam a partir da participação direta dos agricultores e agricultoras , à luz da conferência da qualidade orgânica em UFPs, mediante o registro das informações de práticas agrícolas, uso e manejo da terra em plano de manejo e anotações diárias em caderno de campo, visitas de pares (comissão de pares), comissão de avaliação (“revisão da visita de pares”), conselho de recursos, comissão técnica e assembleia geral de aprovação do giro anual do SPG na lógica de emissão do certificado da conformidade orgânica. . Esse modelo fortalece os vínculos comunitários, a inclusão social, a possibilidade de ampliar o acesso a prateleiras de produtos a mercados formais com o selo brasileiro orgânico, tanto curtos quanto mais distantes. Além disso, leva a marca da agricultura familiar/identidade e elevando os ganhos do valor agregado dos agricultores e agricultoras com o processo de beneficiamento de alimentos. É inovador e vem sendo bem aceito pela população. O desafio agora é ampliar a visibilidade de mercado, de modo a retroalimentar a diversidade da produção no campo. Para tanto, o projeto nos próximos anos apoiará os SPGs/OPACs nas prospecções de novos mercados. É esse o foco da nossa intervenção. Esse investimento contínuo nos SPGs/OPACs não é casual. Para a Diaconia, a certificação orgânica participativa é a espinha dorsal de toda a estratégia de fortalecimento das cadeias produtivas. É ela que garante que os produtos beneficiados possam levar o selo brasileiro orgânico, acessar mercados diferenciados e dialogar com consumidores e consumidoras que buscam alimentos saudáveis e de origem conhecida. Ao mesmo tempo, o SPG/OPAC funciona como um espaço de formação permanente, onde se discutem práticas agroecológicas, a legislação dos orgânicos, organização produtiva, relações justas, gestão, logística e as diversas possibilidades de comercialização. A estratégia é fortalecer os SPGs/OPACs a partir das suas marcas nos produtos agrícolas com o selo brasileiro orgânico, gerando capacidade de autonomia das associações, ou seja, o selo é o ‘meio’ e o fortalecimento das organizações de base dos agricultores e agricultoras é o ‘fim’.

A implantação da primeira Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) no território do Sertão do Pajeú/PE representa, portanto, a materialização de um processo longo de aprendizagem coletiva. Localizada no assentamento Santa Rita, no município de Serra Talhada/PE, a unidade é resultado direto dessa caminhada.

Agricultores e agricultoras na Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) realizando a pesagem dos grãos de amendoim orgânico para a fabricação da pasta, Assentamento Santa Rita, Serra Talhada – PE, Sertão do Pajeú/PE.

Na vida das famílias agricultoras, os efeitos desse processo começam a se traduzir em mudanças concretas. Maria de Lourdes, associada à ASAP/PE, relata que a organização da comercialização por meio da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) trouxe mais segurança e valorização do trabalho. “É melhor que nossa matéria prima passe pela UBA que vender no comércio. A renda é maior. O modelo da UBA valoriza a compra de matéria prima mais justa para o beneficiamento”, afirma. Ela lembra que, antes da chegada da unidade, produtos como gergelim e amendoim praticamente não tinham saída comercial na região. “Aqui não tinha esse tipo de comércio. Eu só comecei a plantar depois que a UBA chegou”, conta. Para Maria, o beneficiamento não representa apenas renda, mas também saúde e qualidade de vida. “É tudo natural, sem conservante. A saúde depende do que você come”, diz. A fala reflete uma percepção comum entre as famílias associadas: a de que produzir alimentos saudáveis para o mercado também fortalece a alimentação das próprias famílias, ampliando a segurança alimentar e nutricional no território.

Agricultoras e agricultores junto à equipe técnica da Diaconia na Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP/PE no Assentamento Santa Rita, em Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú/PE.

Joana Darck, presidenta da ASAP/PE, acompanha de perto essas transformações. Ela destaca que o fortalecimento da associação e a implantação da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) mudaram a relação das famílias com a produção e com o próprio futuro no campo. “Teve agricultor que perguntou se a gente não tinha errado a conta, porque nunca tinha recebido aquele valor”, relata, ao lembrar dos primeiros pagamentos realizados após a venda dos produtos beneficiados. Para Joana, a certificação orgânica participativa e a comercialização com marca própria foram decisivas para esse salto. “O selo orgânico mudou a renda total”, afirma.

Agricultora Joana Darck/ASAP-PE no campo irrigado de multiplicação de sementes, Assentamento Jacu, Sertânia-PE, Sertão do Pajeú/PE.

Mais que números, Joana fala de pertencimento e permanência. “Se fosse só milho e feijão, eu não estaria mais na agricultura. Hoje eu estou no campo graças à agroecologia, ao coletivo e ao apoio da Diaconia”, diz. Sua trajetória pessoal se confunde com a história da própria associação, marcada pelo fortalecimento do protagonismo feminino, pela ampliação da participação nas decisões e pela construção de uma identidade coletiva que vai além da produção.

É a partir desse acúmulo — de organização social, certificação orgânica participativa e diversificação produtiva — que as Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) se consolidam como um novo patamar na experiência da ASAP/PE. Elas não apenas ampliam a renda das famílias agricultoras, mas reposicionam a agricultura familiar do Sertão do Pajeú/PE no âmbito das cadeias produtivas, criando as bases para um diálogo mais equilibrado com o mercado e para a construção de um futuro no qual produzir no semiárido seja sinônimo de dignidade e reconhecimento.

A consolidação das Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) representa também um novo patamar de organização e gestão para a Associação Agroecológica do Pajeú/PE (ASAP/PE). Ao assumir o processamento, a seleção, a embalagem, a rotulagem e a comercialização de seus próprios produtos, a associação passa a lidar com exigências técnicas, sanitárias, fiscais e logísticas que extrapolam o cotidiano tradicional da produção agrícola. Esse desafio, longe de ser um obstáculo intransponível, tem sido incorporado como parte do processo formativo e organizativo apoiado pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia.

Fábio destaca que o fortalecimento da gestão sempre esteve no centro da estratégia do projeto. “Nossa assessoria é baseada no aprender fazendo e em colocar as pessoas na linha de frente”, explica. Isso significa envolver agricultores e agricultoras na organização da produção, na realização das visitas de avaliação da qualidade orgânica, no diálogo com o Ministério da Agricultura, nas relações com parceiros comerciais e na gestão do conhecimento. Ao longo dos últimos anos, esse processo foi estruturado por meio de módulos de formação, intercâmbios e da valorização dos agricultores e agricultoras multiplicadoras, que assumem papel central na disseminação de saberes e práticas no território.

O fortalecimento dos Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) é um dos eixos mais consistentes dessa caminhada. No Sertão do Pajeú/PE, o SPG da ASAP/PE vem sendo apoiada há cerca de oito anos pelo projeto. Esse apoio contínuo permitiu dar maturidade ao sistema, consolidando procedimentos, fortalecendo comissões internas e ampliando a capacidade da conferência da qualidade orgânica em Unidades Familiares Produtivas (UFPs). “Antes, a fase era de criação dos SPGs. Agora, estamos na fase de fortalecimento, para dar mais maturidade ao processo”, explica Fábio. Esse amadurecimento é fundamental para sustentar o crescimento e desenvolvimento das cadeias produtivas e garantir que os produtos beneficiados mantenham a qualidade e a credibilidade junto ao mercado.

Reunião de inauguração da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP/PE, Assentamento Jacu, Serra Talhada/PE.

A lógica da certificação orgânica participativa também reforça a dimensão coletiva da experiência. Ao contrário de modelos centralizados, os SPGs/OPACs exigem participação ativa dos agricultores e agricultoras familiares, renovação constante das comissões e compromisso com princípios éticos e agroecológicos à luz da legislação brasileira dos orgânicos. Esse envolvimento fortalece o tecido social, mas também impõe desafios. “Um grande desafio do associativismo é o voluntariado”, reconhece Fábio. A gestão da associação, a organização da produção, a emissão de notas e a logística exigem trabalho contínuo, muitas vezes não remunerado. Por isso, o projeto já aponta a necessidade de apoiar no avanço, no futuro, para modelos mais profissionalizados, como cooperativas, capazes de remunerar o trabalho administrativo e lidar com o crescimento do faturamento sem perder o caráter coletivo da iniciativa. Esse desafio já vem se apresentando como necessidade de apoio. O crescimento da produção e comercialização já despontam sobre essa necessidade. Mas, o surgimento de uma cooperativa precisa de uma lógica de intensa participação e fases de construção, onde as famílias agricultoras estejam na linha de frente. Acredito que isso é um “mote” para mais um ciclo do projeto, que requer a continuidade de financiamento. Já estamos olhando para isso.

Enquanto esses desafios são enfrentados, os resultados começam a aparecer com mais nitidez na composição da renda das famílias. O conceito de renda digna orienta toda a estratégia do projeto. Trata-se de uma renda mensal que permite à família agricultora (quatro pessoas) atender suas necessidades básicas e acessar bens e serviços que garantam bem-estar e qualidade de vida, como lazer, cultura, arte, vestuário, educação e mobilidade. Dados recentes mostram que, no Sertão do Pajeú/PE, 8% das famílias acompanhadas pelo projeto já alcançaram renda igual ou superior à renda digna (R$ 2.908,00/mês), enquanto 45% têm renda igual ou maior que o salário-mínimo (R$ 1.518 – em 2025). Quando se considera o conjunto dos sete territórios atendidos, que somam mais de 900 famílias agricultoras, 14% já atingem a renda digna e 44% estão no patamar do salário-mínimo ou acima.

Esses números refletem um avanço significativo em um contexto historicamente marcado pela precariedade econômica. Para Fábio Santiago, a diversificação produtiva e o beneficiamento são elementos-chave para ampliar esse impacto. “Com a Unidade de Beneficiamento de alimentos (UBA), a gente potencializa a geração de renda, compondo essa renda com mais cadeias estruturantes, para que ela chegue e ultrapasse a renda digna”, afirma. A possibilidade de agregar valor aos produtos e comercializá-los com marca própria permite que o retorno financeiro seja redistribuído entre os agricultores e agricultoras, fortalecendo a economia local e reduzindo a dependência de atravessadores.

O acesso a mercados aparece, nesse cenário, como um elemento decisivo. Márcio Batista, agricultor e consultor de acesso a mercados do projeto, avalia que os produtos beneficiados da ASAP/PE têm um potencial expressivo de inserção em mercados diferenciados. “Os produtos têm qualidade diferenciada, origem transparente e forte valor social, atributos cada vez mais buscados por consumidores e consumidoras conscientes”, afirma. Óleos, pastas e grãos selecionados dialogam com mercados que valorizam produtos orgânicos, sustentáveis e de impacto positivo. Para ele, há um espaço real para ampliar essa inserção e fortalecer o valor percebido dos produtos da agricultura familiar. As estratégias adotadas para essa aproximação com o mercado têm sido simples, diretas e baseadas na confiança. “A prioridade tem sido o contato humano, a apresentação transparente da história da ASAP/PE e a demonstração da qualidade real dos produtos”, explica o consultor. Visitas presenciais, envio de amostras e conversas objetivas com compradores e compradoras têm sido fundamentais para abrir o diálogo e despertar o interesse. Mesmo com ações enxutas, os resultados começam a aparecer. “Supermercados e lojas especializadas têm demonstrado maior abertura, e algumas conversas com compras institucionais já avançaram para etapas de avaliação”, destaca, reforçando que a força da produção agroecológica com certificação orgânica participativa da ASAP/PE é o principal cartão de visitas.

Um exemplo concreto desse avanço é a parceria com o Grupo Tavares de Supermercados, que passou a comercializar produtos da ASAP/PE. Para o empresário Airton Tavares, a parceria representa uma oportunidade de crescimento conjunto. “É uma honra e um prazer para nós termos a ASAP/PE como parceira. Ter um produto totalmente orgânico dentro da loja valoriza muito”, afirma. Ele destaca que a presença desses produtos agrega valor ao estabelecimento e dialoga com uma demanda crescente dos consumidores e consumidoras por alimentos saudáveis e com origem conhecida. “Esperamos fortalecer essa parceria, ampliar os negócios e receber novos produtos da agricultura familiar”, completa.

A entrada dos produtos da ASAP/PE em supermercados representa um marco importante para a agricultura familiar do Sertão do Pajeú/PE. Mais que ampliar pontos de venda, esse movimento aproxima o campo da cidade e permite que consumidores e consumidoras façam escolhas mais conscientes. Ao optar por produtos agroecológicos com certificação orgânica participativa (selo orgânico) da agricultura familiar, o consumidor(a) contribui para a redistribuição do valor gerado na cadeia produtiva, fortalecendo economias locais e reduzindo desigualdades. Para Fábio Santiago, esse diálogo direto com a sociedade é estratégico. “Quando a marca da agricultura familiar vai para a prateleira, a sociedade passa a escolher alimentos saudáveis, com selo orgânico e identidade”, afirma.

Agricultora Joana Darck com os produtos da ASAP/PE no mercadinho Rafael, em Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeú/PE.

Produzir no semiárido, no entanto, continua sendo um desafio permanente, especialmente diante das mudanças climáticas. O regime de chuvas concentrado em poucos meses do ano exige planejamento cuidadoso e estratégias de adaptação. Fábio explica que cerca de 70 a 80% das chuvas se concentram em quatro a cinco meses, seguidos por longos períodos de estiagem. Para enfrentar essa realidade, o projeto aposta em culturas de ciclo mais curto, como gergelim e amendoim, que podem ser colhidas em 80 a 100 dias, além do plantio nas primeiras chuvas para aproveitar ao máximo a estação chuvosa.

Campo de multiplicação de sementes da agricultora Joana Darck/ASAP-PE, Assentamento Jacu, Sertânia/PE.

Outra estratégia importante tem sido a implantação de campos de multiplicação de sementes irrigadas, aproveitando o potencial de poços existentes no território. Esses campos permitem produzir sementes e grãos destinados às Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs), garantindo matéria-prima mesmo em anos de maior irregularidade climática. Além disso, o projeto vem estruturando cadeias produtivas voltadas à adubação verde (feijão de porco, crotalária juncea, feijão guandu, mucunas cinza e preta, cunhã, entre outras) e, mais recentemente, à produção de sementes da caatinga (aroeira, umburana de cheiro, angico, entre outras), que poderão ser utilizadas em programas de recuperação ambiental e reflorestamento, contribuindo para a restauração da paisagem do semiárido.

A diversificação produtiva aparece, assim, como uma estratégia central de adaptação climática e de geração de renda. Atualmente, o projeto já trabalha com mais de onze cadeias produtivas estruturadas, que vão além do algodão e incluem alimentos e sementes com alto valor nutricional e ambiental. Muitos desses produtos são considerados superalimentos, por sua composição rica em nutrientes como ômegas, ferro e micronutrientes essenciais. Para Fábio, levar esses produtos ao mercado com a marca da agricultura familiar representa uma inovação significativa, inclusive com potencial de alcance nacional e internacional.

Sementes de adubação verde produzidas pela ASAP/PE.

Outro eixo fundamental dessa experiência é o protagonismo das mulheres. As mulheres ocupam cargos estratégicos nos SPGs/OPACs, participam das instâncias de decisão da associação e são maioria na equipe que atua diretamente no beneficiamento dos alimentos. Além de fornecerem matéria-prima, elas recebem pelo trabalho realizado na Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA), o que amplia a renda e fortalece a autonomia financeira. Fábio destaca que esse modelo gera impactos diretos no planejamento familiar e no bem-estar das mulheres. “A partir do momento que elas participam do processamento, recebem pelo trabalho e passam a ter renda própria, isso gera autonomia”, afirma.

Participação das mulheres da ASAP/PE durante a trilha formativa da ONU Mulheres em Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeú/PE.

Joana Darck é uma das vozes que expressam essa transformação. Para ela, a participação na gestão da ASAP/PE e no fortalecimento da UBA foi decisiva para sua trajetória pessoal e política. “Antes eu aceitava tudo calada. Hoje faço valer minhas vontades. Me descobri como mulher”, afirma. Sua fala sintetiza o impacto do projeto para além da dimensão econômica, revelando como a organização coletiva e o acesso à renda fortalecem a autoestima, a autonomia e o protagonismo feminino no campo. O futuro da experiência da ASAP/PE aponta para novos desafios e possibilidades. A expectativa é que outras Unidades de Beneficiamento sejam implantadas em diferentes municípios do território, descentralizando o processamento e ampliando o alcance da marca da agricultura familiar. Mas, tudo isso carece de novos investimentos. Há também perspectivas de fortalecimento da apicultura, com a certificação orgânica de mel e derivados, e de ampliação da produção de sementes da caatinga para programas de restauração ambiental. Além disso, o projeto aposta na ampliação do acesso a mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), levando alimentos saudáveis e orgânicos para escolas e equipamentos públicos.

Ao final, a experiência da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP/PE se consolida como uma resposta concreta aos desafios históricos da agricultura familiar no semiárido. Mais que estruturas físicas, elas representam a materialização de um projeto coletivo que articula agroecologia, organização social, justiça de gênero, certificação orgânica participativa e acesso a mercados. Um projeto que devolve às famílias agricultoras o controle sobre a cadeia produtiva, fortalece a economia local e afirma a agricultura familiar como protagonista da segurança alimentar, da justiça social e da convivência com o semiárido.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó. No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.