Do campo à mesa: alimentos orgânicos do Sertão do Pajeú/PE geram renda e fortalecem o Semiárido
Produtos cultivados por agricultores e agricultoras familiares do Semiárido chegam a consumidoras e consumidores urbanos por meio do associativismo da certificação orgânica participativa e de novos canais de comercialização.
A busca por uma alimentação saudável e sustentável tem estreitado cada vez mais os laços entre o campo e a cidade. Um exemplo dessa conexão pode ser visto em Recife/PE, na loja Comadre Fulozinha, localizada no bairro de Casa Forte. O estabelecimento comercializa produtos vindos diretamente da Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP/PE), situada no Sertão de Pernambuco, refletindo o impacto positivo de iniciativas que unem a agricultura familiar, a certificação orgânica participativa e o associativismo.

“Essa parceria com a loja nasceu a partir de um mapeamento e de um encontro que tivemos em uma feira em 2025, onde a Diaconia estabeleceu contato com a responsável pela loja da Comadre Fulozinha. Já apoiamos a ASAP/PE na entrega de dois pedidos e o retorno tem sido muito positivo, confirmando a grande demanda por esses produtos. Essa inserção no comércio local é fundamental: além de oferecer alimentos e itens vindos de uma agricultura familiar sustentável e justa, ela gera renda direta para essas famílias, agregando valor ao seu trabalho e fortalecendo a economia local através da presença em prateleiras e lojas da cidade”, reforça Victória Moura, assessora político-pedagógica da Diaconia.

A ASAP/PE desempenha um papel fundamental na organização de agricultores e agricultoras familiares no Sertão do Pajeú/PE, promovendo práticas que respeitam o meio ambiente e valorizam o conhecimento local. Os produtos cultivados por essas famílias — como o óleo de gergelim, gergelim fracionado, amendoim integral e pasta de amendoim — passam por um processo essencial antes de chegar às prateleiras: o beneficiamento. Esse processo ocorre na Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP/PE. As UBAs são instalações comunitárias essenciais para a agricultura familiar, pois permitem que a matéria-prima seja processada, embalada e rotulada de forma adequada, agregando valor comercial aos produtos. Sem uma UBA, muitos/as agricultores/as teriam dificuldades em comercializar sua produção para além das feiras locais, limitando seu potencial de renda.
Um dos grandes diferenciais dos produtos da ASAP/PE exibidos na loja é o selo de Certificação Orgânica Participativa. Ao contrário da certificação por auditoria tradicional, onde uma empresa privada é contratada para inspecionar a propriedade, o Sistema Participativo de Garantia (SPG) baseia-se na responsabilidade coletiva e na confiança mútua. Os/as próprios/as agricultores/as formam uma rede que visita e avalia as propriedades de forma regular. Esse modelo garante a transparência e a credibilidade de que o alimento foi produzido sem o uso de produtos químicos sintéticos, promove a inclusão social ao reduzir os custos da certificação para famílias agricultoras e fortalece o espírito comunitário por meio da troca de saberes e do controle social.

A presença em lojas físicas em centros urbanos abre as portas para um público consumidor consciente. Além disso, a tecnologia tem sido uma forte aliada, permitindo que os produtos da ASAP/PE ganhem o mercado digital através de plataformas como o Mercado Livre. Essa diversificação de canais de venda assegura uma renda mais estável para as famílias e amplia a visibilidade do trabalho realizado no Semiárido. “Para mim é um prazer poder comercializar produtos vindos de agricultores e agricultoras familiares do Sertão do Pajeú/PE. Nós estamos comercializando há cerca de um ano e eles possuem uma excelente saída, tanto pela qualidade que tem, como pelo que representam. Eu mesma não fico sem o óleo de gergelim, uso tanto para consumo como para hidratar minha pele, é maravilhoso”, comenta Sílvia Sabadel, proprietária da loja Comadre Fulozinha.
A experiência desenvolvida no Sertão do Pajeú/PE dialoga com uma realidade nacional. De acordo com o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agricultura familiar representa mais de 70% dos estabelecimentos rurais do país e desempenha um papel estratégico na produção de alimentos consumidos diariamente pela população brasileira. Mandioca, feijão, leite, hortaliças, frutas e diversos outros itens que chegam às mesas das famílias têm origem em pequenas propriedades rurais, muitas delas conduzidas por famílias que combinam tradição, conhecimento local e práticas sustentáveis.
Ao contrário da ideia de combate à seca, difundida durante muitos anos, a convivência com o Semiárido propõe a valorização das características do bioma, reconhecendo sua riqueza e potencialidades. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e abriga uma enorme diversidade de espécies vegetais e animais. A adoção de práticas agroecológicas, como o cultivo consorciado, a cobertura do solo, a adubação orgânica e o manejo sustentável da vegetação nativa, contribui para a conservação desse patrimônio ambiental.
No contexto geral, a agricultura familiar baseada na produção orgânica é um pilar essencial para a segurança e soberania alimentar do país, pois são agricultores e agricultoras que abastecem as mesas brasileiras com alimentos diversificados e ricos em nutrientes. Consumir esses produtos vai além do benefício individual da saúde; significa apoiar um modelo que fixa o homem e a mulher no campo com dignidade, gera renda local e preserva a biodiversidade através de práticas que protegem o solo e a água.
Outro aspecto importante é o protagonismo de mulheres e jovens rurais. Em muitas comunidades do Sertão do Pajeú/PE, são as mulheres que lideram os processos de organização, participam das associações e assumem papel central na transformação dos alimentos e na comercialização dos produtos. A agregação de valor por meio do beneficiamento permite ampliar as oportunidades de geração de renda para as mulheres, que historicamente tiveram seu trabalho invisibilizado. A produção de derivados de gergelim e amendoim, por exemplo, fortalece a autonomia econômica feminina e amplia a participação das mulheres nas decisões familiares e comunitárias.

“Para nós da ASAP/PE, é muito importante garantir essa comercialização para além da nossa localidade, em outros comércios, inclusive em um estabelecimento na capital Recife. Além de agregar valor ao nosso produto, a venda do que a gente produz garante a nossa permanência no campo, garante que nós temos uma renda digna, uma qualidade de vida maior, e isso é gratificante”, reforça Joana, a presidente da Associação.
O sucesso dessas iniciativas conta com o suporte técnico de organizações como a Diaconia, por meio do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos. A instituição oferece assessoria político-pedagógica e técnica às famílias agricultoras, baseando-se no cultivo consorciado, onde o algodão agroecológico é plantado junto a alimentos como o milho, o feijão, o gergelim, o girassol, o amendoim, entre outros. Essa metodologia traz múltiplos benefícios, como a geração de renda diversificada e a sustentabilidade ambiental, pois o consórcio de culturas mantém a estabilidade de forma natural, provando que é possível produzir em harmonia com o bioma da Caatinga. A sinergia entre o trabalho no campo, o beneficiamento comunitário e o comércio justo garantem que iniciativas como a da ASAP continuem a prosperar, transformando a realidade do Sertão e alimentando as cidades com saúde e solidariedade.
Além da Comadre Fulozinha em Casa Forte (Recife/PE), os produtos da ASAP/PE também podem ser encontrados nas lojas físicas do Supermercado KiPreço, em Afogados da Ingazeira (PE), e no Mercadinho do Rafael, em Sertânia (PE). Para acessar os produtos no Mercado Livre, basta acessar a página da ASAP/PE no instagram @asappajeu através do link disponível na bio.
