Poço de produção de água fortalece produção de sementes e impulsiona autonomia de mulheres agricultoras no Alto Sertão sergipano
Parceria entre Diaconia e Igreja Presbiteriana de Pinheiros garante segurança hídrica, salvaguarda de sementes crioulas e abastecimento de futura Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) em Porto da Folha, Sergipe.
Em uma região onde a irregularidade das chuvas define o ritmo da vida e da produção, garantir o acesso permanente à água significa muito mais do que enfrentar os períodos de estiagem. Significa assegurar a continuidade da produção de alimentos, fortalecer a agricultura familiar, ampliar a autonomia das comunidades rurais e criar novas oportunidades de geração de renda. Foi com esse propósito que a comunidade de Lagoa da Volta, no município de Porto da Folha (SE), recebeu a implantação de um poço tubulare de um moderno sistema de irrigação com a formação de 4 setores hidraulicamente independentes e cavalete de filtragem. A iniciativa é resultado da parceria entre o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia, e a Igreja Presbiteriana de Pinheiros (SP). O sistema abastece um campo irrigado por gotejamento destinado à multiplicação de sementes crioulas (incluindo outras como algodão, amendoim, girassol, gergelim e adubação verde), conduzida pelas mulheres da Associação de Certificação Orgânica Participativa de Agricultores e Agricultoras do Alto Sertão de Sergipe (ACOPASE).

O sistema representa um avanço importante para a produção agroecológica da região. Antes dependente exclusivamente das chuvas, o grupo passa a cultivar também durante o período de estiagem, garantindo regularidade e reduzindo os impactos causados pelas longas estiagens. “O poço tubular instalado atende a uma demanda histórica das mulheres da associação. Elas já pleiteavam essa estrutura para potencializar o trabalho que desenvolvem com hortaliças. Através do apoio da Diaconia, essa conquista foi alcançada e, hoje, o poço fortalece não apenas a produção de hortaliças, mas principalmente o campo de multiplicação de sementes”, destaca Milena Ferreira, assessora-técnica da Diaconia.
Mais do que produzir sementes, o novo espaço prepara o caminho para outro importante passo da comunidade: o abastecimento da futura Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA), cuja inauguração está prevista para o segundo semestre deste ano. A iniciativa também evidencia o protagonismo das mulheres na construção de alternativas sustentáveis para a convivência com o Semiárido. Organizadas coletivamente, elas assumem o processo de produção, fortalecem a soberania alimentar das famílias e contribuem para a conservação da agrobiodiversidade local. “Esses campos irrigados de sementes são uma estratégia do projeto para que cada território produza suas próprias variedades, dependendo do seu potencial. Cultivamos sementes de adubação verde, como feijão-de-porco, feijão-guandu, cunhã e mucuna-cinza e preta, e também sementes dos consórcios, como milho, feijão, algodão, girassol e amendoim, visando a disseminação no território e a geração de renda. No caso de Lagoa da Volta, o campo conta com uma vazão em torno de 600 litros por hora”, aponta Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão/Diaconia.

As Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) cumprem um papel fundamental na consolidação da agroecologia, pois transformam a matéria-prima bruta em produtos de maior valor agregado, como pastas, óleos, tahine e farinhas. Mais do que estruturas físicas de processamento, as UBAs são ferramentas de emancipação econômica para a agricultura familiar. Elas quebram a dependência de atravessadores, combatem o desperdício de safras e agregam valor da produção. No contexto do Alto Sertão, a UBA representa o elo final de um ciclo sustentável, conectando a segurança hídrica do poço à autonomia financeira de mulheres que agora controlam desde a semente até o produto final que chega ao mercado. “Esse campo irrigado é uma escolha estratégica para regularizar a produção, mantendo-a equilibrada, sustentável e contínua. Uma das principais ações é produzir o milho no período da entressafra da região. Isso resolve um problema crítico: a contaminação por pólen de milho transgênico, que ameaça as sementes crioulas e ancestrais dos agricultores e agricultoras. Cultivar na entressafra é uma salvaguarda para manter essas variedades antigas puras”, complementa Fábio.
Campo de multiplicação implementado após a perfuração do poço artesiano na comunidade
“Este ano foi de forte estiagem, um período muito seco, mas a lavoura que plantamos está a coisa mais linda. Graças ao poço, não vamos perder a nossa produção. Isso representa um avanço enorme, pois vínhamos perdendo até as sementes do nosso milho crioulo, nossa variedade ancestral. Agora teremos a segurança de plantar o milho e colher sementes de alta qualidade. Se não fosse por esse poço, não teríamos nada”, aponta Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cida, agricultora e vice-coordenadora da ACOPASE.
Para garantir a excelência dos resultados, o projeto conta com assessoria técnica permanente. “A Diaconia acompanha mensalmente essa área, orientando desde a diversidade de plantas e o espaçamento correto até o manejo do solo e o uso de biofertilizantes. O campo implementa rigorosamente o protocolo de boas práticas e as regras da certificação orgânica participativa. Ele é monitorado pela Comissão de Ética do Sistema Participativo de Garantia (SPG), funcionando como uma área controlada que assegura aos produtos o selo orgânico do Brasil”, detalha o coordenador do projeto/Diaconia – Fábio.

Novo espaço prepara o caminho para outro importante passo da comunidade: o abastecimento da futura Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA)
Em Lagoa da Volta, Porto da Folha – SE, o poço representa uma fonte permanente de água que alimenta não apenas a terra, mas também o trabalho coletivo e as perspectivas de futuro. Reafirma, ainda, que a convivência com o Semiárido se constrói com inovação social e valorização dos territórios. “O objetivo futuro é replicar esse modelo de uso múltiplo da água em outras comunidades do Semiárido, garantindo segurança hídrica para a produção, para o processamento de alimentos na UBA e para o consumo doméstico das famílias nos meses mais secos”, planeja Fábio.
Com a segurança hídrica consolidada, as mulheres da associação celebram a transformação na realidade local. “Com o acesso à água, tudo prospera, e agora podemos abastecer a UBA com gergelim, amendoim e girassol. Enquanto as culturas dos nossos roçados tradicionais foram quase todas perdidas pela seca, a nossa área irrigada está vigorosa. Só temos a agradecer por essa conquista”, finaliza Cida.
