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Entre a estiagem e a convivência: saiba como a agricultura familiar do Semiárido tem investido em práticas resilientes para manter a renda e conservar a Caatinga


Por Acsa Macena

Em ano da COP 30, ganha força o debate sobre a urgência de reduzir os impactos das mudanças climáticas. Ações que reúnem a restauração do bioma, geração de renda e proteção da biodiversidade no Semiárido aparecem como estratégias fundamentais.

Umburana de cheiro. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe/PE.

Em um ano com chuvas distribuídas de forma irregular e ocorrência de veranicos longos em diferentes territórios do Semiárido nordestino, a produção dos roçados agroecológicos sofre ameaças significativas. Entre as mais afetadas estão a safra do algodão, de culturas alimentares e sementes de adubação verde. Por outro lado, historicamente, variações de precipitações têm sido registradas entre diferentes territórios.

Apesar de ser um dos Semiáridos mais chuvosos do mundo, agricultoras e agricultores têm relatado essa irregularidade como um dos principais desafios enfrentados em 2025. No estado de Alagoas, mesmo com registros pontuais de precipitações, o sol forte ainda predomina e dificulta até mesmo o plantio em algumas localidades. Situação semelhante é observada no Sertão do Araripe e Sertão do Pajeú, em Pernambuco, onde as chuvas também permanecem irregulares e a previsão de colheita está abaixo do esperado.

Já no Semiárido piauiense, também há preocupação com a quadra chuvosa, que tem sido extremamente instável: “a perda da safra pode chegar a quase 95% e estamos sem chuvas em quase toda as regiões. Em alguns lugares, a precipitação acumulada não chegou a 200 milímetros e já estamos quase no final do período mais chuvoso”, afirma Gean bastos, consultor da Diaconia e sócio-fundador da Associação dos/das Produtores/as Agroecológicos do Semiárido Piauiense (APASPI/PI).

Um dos estudos realizados no território da Serra da Capivara – PI no âmbito do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia, analisou a variabilidade das chuvas, a partir de uma série pluviométrica de 30 anos (1982 a 2012), que reúne as médias mensais das precipitações. Isso permitiu observar a elevada variabilidade pluviométrica anual.  

O estudo evidencia que é possível planejar o plantio do algodão em consórcios agroecológicos, apesar dessa instabilidade das chuvas. “O momento crítico para o desenvolvimento da cultura ocorre aos 60 dias após o plantio, quando se inicia o florescimento, fase em que a planta demanda maior disponibilidade hídrica. Por isso, o calendário agrícola deve ser ajustado para que esse período coincida com o mês de maior volume de chuvas, conforme indicado pela série hidrológica”, afirma Juliana Melo, uma das autoras do estudo.

Campo consorciado de algodão agroecológico com culturas alimentares. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe/PE.

O estudo também identifica os meses que compõem o chamado “período chuvoso”, quando as precipitações são mais frequentes, e aponta o momento mais adequado para iniciar o plantio nos roçados agroecológicos: “A partir das análises das séries hidrológicas é possível propor, também, um cronograma de atividades para implantação do algodão em consórcios agroecológicos. As decisões de data de plantio devem acontecer em cada grupo de produção no ano da safra”, que pode ser consultado na biblioteca do projeto.

Na comunidade quilombola Lagoas, localizada em São Raimundo Nonato (PI), famílias agricultoras estão provando que é possível produzir alimentos e algodão mesmo diante da escassez de chuvas. O segredo está nas práticas agroecológicas desenvolvidas e acompanhadas pelo assessoramento técnico.

“Mesmo com poucas chuvas, aqui teremos colheita do algodão e feijão. Só não vamos colher o milho, mas poderemos tirar sementes para a próxima plantação. É difícil, mas com boas práticas conseguimos tirar o sustento, e sem queimadas e adubo químico”, afirma o agricultor José Aragão, conhecido como seu Nezinho, que é ligado à APASPI/PI.

Ele se tornou referência para a região por aplicar o Protocolo de regras da certificação orgânica participativa e boas práticas do algodão agroecológico, uma ferramenta construída a partir da experiência do campo e que orienta famílias agricultoras do Semiárido.

Agricultor Manoel Ribeiro (APASPI/PI) em campo consorciado de algodão agroecológico com culturas alimentares. Comunidade Quilombola Lagoas, município de São Raimundo Nonato/PI.

Entre as práticas adotadas estão a rotação de culturas, cultivo em faixas consorciadas, a incorporação de resíduos orgânicos no solo, a manutenção da matéria orgânica e a conservação da vegetação nativa ao redor dos consórcios. Esses cuidados não apenas aumentam a produtividade, como também fortalecem a biodiversidade local.

Espécies de árvores nativas como umburana, angico, jatobá e juazeiro são conservadas e, ao mesmo tempo, contribuem para o equilíbrio do ecossistema. A vegetação oferece sombra, alimento para os animais e abrigo para inimigos naturais, mantendo assim a estabilidade.  Com essas estratégias, mesmo em anos de estiagem severa, há colheita garantida, inclusive de algodão.

Já João Eudes, agricultor e integrante da APASPI/PI, destaca que viver no Semiárido exige aprendizado constante e adaptação às condições do clima. “Estamos aprendendo com o meio ambiente e precisamos nos adequar ao nosso clima, trabalhando com mais de uma atividade”, afirma. Segundo ele, a experiência coletiva dentro da associação tem sido fundamental para enfrentar os desafios da região. “Nos últimos anos temos aprendido bastante juntos. Aproveitar as primeiras chuvas, plantar em consórcio e escolher plantas que se adaptam melhor à seca são estratégias que hoje já fazem parte do nosso dia a dia.”

Ele lembra que, no passado, muitas pessoas deixavam de plantar por medo das perdas com a estiagem. Hoje, porém, há uma mudança de mentalidade baseada em práticas resilientes. “Nosso Semiárido é difícil de viver com só uma atividade. Fica complicado porque a chuva é muito irregular”, reforça. A saída, segundo ele, está na diversificação: apicultura, caprinocultura e agricultura irrigada com poço tubular são algumas das alternativas adotadas por ele. “E uma coisa vai se encaixando na outra. Quando é período de chuva, a gente planta; quando não tem, investe em outras atividades que ajudam a equilibrar a renda”, conclui.

Área irrigada para produção de hortaliças do agricultor João Eudes (APASPI/PI), São Raimundo Nonato – PI.

Resiliência e alternativas diante das incertezas do clima no Semiárido – Embora esse cenário de irregularidade das chuvas no Semiárido seja historicamente conhecido, a situação tem sido alargada por mudanças climáticas, que também impactam a agricultura de base familiar, cuja dependência do clima é um desafio constante para a garantia da sua produção e sustento.

A crise climática opera sobre a perda da biodiversidade, configurando um “suicídio ecológico”, conforme aponta o pesquisador brasileiro Paulo Nobre, em reflexão ao maior evento voltado a esse seguimento, a COP 30. Para Nobre, a restauração de todos os biomas seria uma eficiente resposta a esse cenário: “Adaptação e mitigação climática andam juntas. Quando restauramos os biomas, estamos ao mesmo tempo reduzindo os impactos climáticos e protegendo a biodiversidade”, disse Carlos Nobre, em entrevista ao portal EXAME.

A reflexão foi feita em referência à 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), maior evento global sobre clima, que será sediado em Belém do Pará em 2025 e reunirá lideranças mundiais para discutir soluções diante da emergência climática.

É nesse contexto que se torna cada vez mais urgente as estratégias de adaptação climática que possam caminhar juntas às dinâmicas da agricultura familiar, uma das principais atividades do Semiárido. A resiliência, nesse contexto, é crucial para ampliar e inovar as formas de geração de renda, a fim de superar a dependência exclusiva do roçado de sequeiro.

Semiárido produtivo o ano inteiro – Na Serra da Capivara, no Piauí, a produção de mel e a coleta de sementes de árvores nativas têm se consolidado como atividades estratégicas para a convivência com o Semiárido. Segundo Gean Bastos, consultor da Diaconia na região, essas práticas não apenas garantem renda às famílias agricultoras, como também estão diretamente ligadas à conservação da biodiversidade da Caatinga. “A apicultura depende de uma Caatinga diversa e florada. Sem essa diversidade de plantas, não há pasto apícola que sustente os enxames”, explica.

Florada do juazeiro (esquerda) e da umburana de cheiro (direita). Serra da Capivara/PI.

Esse território tem se destacado nacionalmente na produção de mel, mesmo diante da estiagem severa que afeta o Semiárido. Ele explica que a apicultura é uma atividade resiliente às mudanças no regime de chuvas, justamente por estar conectada à biodiversidade da Caatinga. “Mesmo com poucas chuvas, temos explosões de floradas. Há plantas que florescem no período seco, garantindo alimento para as abelhas”, afirma.

A florada das espécies nativas é o que torna possível a produção de mel, mesmo em anos de estiagem severa. Plantas como a jurema-preta, o marmeleiro, a favela e o quebra-facão florescem em diferentes períodos do ano, algumas inclusive no auge da seca, permitindo a alimentação das abelhas e a continuidade da produção.

Florada da Faveleira. Comunidade Queimada da Onça, município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.

Dessa forma, o calendário de colheita do mel na região está diretamente ligado às floradas das espécies nativas da Caatinga e varia conforme o início das chuvas anuais. A primeira florada, entre outubro e dezembro, marca o início do ciclo produtivo, com espécies como favela, cansanção, pereira e jurema-preta. Nesse período, o foco é o fortalecimento e o abastecimento dos enxames, preparando-os para os meses mais produtivos.

A segunda florada, de janeiro a maio, é a principal fase de colheita, sustentada por plantas como jurema-preta, quebra-facão, marmeleiro e pasto-rasteiro, que garantem grande volume de mel. “Essa florada termina geralmente entre o fim de abril e o começo de maio. Depois disso, entra o período seco, e muda a dinâmica da floração”, explica Gean.

 A produção se estende até a terceira florada, de maio a julho, impulsionada por espécies como umburana de cheiro, aroeira e novamente a jurema-preta. Já a quarta florada, entre setembro e novembro, com a floração do umbuzeiro, ipê-roxo e juazeiro, não visa à colheita, mas sim à manutenção dos enxames, assegurando que cheguem nutridos e bem abastecidos para o reinício do ciclo no final do ano.

Florada da Jurema preta. Comunidade Queimada da Onça, município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.

Apesar do cenário crítico de estiagem em muitas regiões, municípios como São Raimundo Nonato – PI se destacaram na última safra com a maior produção de mel, justamente por conseguirem aproveitar bem as floradas estratégicas, como a do marmeleiro. A jurema preta, por exemplo, pode apresentar até três floradas por ano, e a aroeira entra como outra espécie importante para garantir alimento aos enxames e possibilitar que eles armazenem reservas para períodos de escassez, reduzindo o tempo de entre safra para cerca de dois meses.

Gean destaca também a relação direta entre a apicultura, a coleta de sementes e a conservação da Caatinga. “A apicultura depende de uma Caatinga diversa e florada para manter o pasto apícola. E, junto com isso, vem a criação de pequenos animais e o foco na comercialização de sementes nativas”, afirma. Essas práticas não apenas fortalecem a renda das famílias agricultoras, como também reforçam a importância de conservar o bioma como estratégia de enfrentamento à crise climática.

Criação de abelhas. Assentamento malhada Inca. Município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.

Já no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, o agricultor Cícero Aldo, ligado à Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP/PE), também destaca a importância da produção de mel como uma alternativa viável à agricultura de sequeiro, que depende das chuvas irregulares do sertão.

“Não precisamos de muita chuva; uma ou duas chuvas de 10, 15 ou 20 milímetros já são suficientes para as árvores florirem, e as abelhas, por sua vez, produzirem mel a partir dessas árvores”, explica. Ele ressalta que a maioria dos agricultores e agricultoras da região já realizou a primeira colheita do ano e se prepara para a segunda, sendo comum alcançar até três retiradas anuais de mel, mesmo com pouca precipitação.

Agricultor Cícero Aldo (ASAP/PE) realiza a colheita do mel. Fazenda Jatobá de Baixo – 2º Distrito, município de Serra Talhada-PE, Sertão do Pajeú.

Essa mesma vegetação que sustenta a apicultura também é fonte de sementes nativas, coletadas por agricultoras e agricultores para comercialização, restauração ambiental e fortalecimento da Caatinga. A coleta de sementes, além de gerar renda sem necessidade de insumos externos, contribui para manter o ciclo natural da biodiversidade local. “Uma atividade alimenta a outra. Coletar sementes ajuda a preservar as espécies que vão florir e garantir o alimento das abelhas. Ao mesmo tempo, a apicultura incentiva o cuidado com a vegetação nativa, já que a qualidade do mel está diretamente ligada à diversidade do pasto apícola”, afirma Gean.

Calendário de colheita do mel (Serra da Capivara – PI)

De forma aliada, essas duas atividades mostram como é possível unir conservação ambiental e geração de renda de forma sustentável, transformando os desafios do Semiárido em oportunidades de fortalecimento da agricultura familiar, como tem feito o presidente e agricultor da APASPI/PI, Jonilson Sousa. Ele tem obtido ganhos não só com o valor da comercialização do algodão e de outros produtos dos consórcios agroecológicos, mas também a partir da coleta de sementes de árvores nativas da Caatinga.

“Eu trabalho com sementes e mudas há oito anos. Então a experiência que tenho é das melhores possíveis. Você vai tirar uma semente de uma árvore para fazer um reflorestamento. Eu consegui fazer aí uma média de R$25.550 em coleta de sementes nativas da Caatinga. Entre elas estão o mandacaru, aroeira, angico, ipê, jurema e preta, juazeiro, tamboril e jatobá”, explica.

Jonilson Sousa (APASPI/PI) e juventude rural durante coleta de sementes de umburana de cheiro. Quilombo Lagoa do Moisés, município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.

Sementes de árvores nativas da Caatinga produzidas pela APASPI/PI para comercialização. Quilombo Lagoa do Moisés, município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.

Dona Socorro, agricultora da região do Araripe, em Pernambuco, e integrante da Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe (ECOARARIPE/PE), é um exemplo vivo da pluriatividade que caracteriza a agricultura familiar no Semiárido. Além do cultivo consorciado do algodão agroecológico, ela diversifica suas fontes de renda com a criação de pequenos animais (caprinocultura), além da produção de mel.

Diante da escassez de chuvas, a alimentação dos animais se torna um desafio, exigindo a compra de ração para garantir a sobrevivência dos rebanhos. “Sem chuva, não temos como alimentar os bichos”, comenta. Ela e o marido também contam com a aposentadoria como uma forma de complementar a renda.

Agricultora Maria Socorro (ECOARARIPE/PE) na criação de caprinos. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe/PE.

Nos últimos tempos, a atividade com as abelhas tem ganhado força. “Estamos aumentando a atividade de abelhas e vamos ampliar. Já temos dez caixas, e na primeira colheita conseguimos cerca de 80 quilos de mel. Vendemos a 25 reais o quilo”, explica. O mel se tornou uma fonte importante de renda extra, sem exigir grandes investimentos, já que não há custo com insumos externos e a mão de obra é da própria família.

Agricultora Maria Socorro e Francisco Silva (ECOARARIPE/PE) na produção de mel. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe/PE.

Outra frente que Dona Socorro tem trabalhado é a coleta de sementes nativas da Caatinga. Desde janeiro, ela já colheu 6 quilos de sementes de jurema, 1,5 quilo de ipê-roxo, 800 gramas de favela e 120 quilos de sementes de umbu. “São outras atividades que não geram custo e que conseguimos fazer com nosso próprio esforço”, afirma. Essas sementes serão comercializadas pelo ECOARARIPE/PE, através do lançamento da sua loja virtual.

Para ela, o bioma é uma riqueza que pode contribuir com a mitigação das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que gera renda. “Sei que aqui temos uma grande reserva da Caatinga, mas tem lugar que já perdeu tudo. Fico feliz não só pela renda que a coleta de semente traz, mas por saber que estou contribuindo com a natureza”, afirma.

Sementes de umbuzeiro produzidas pela ECOARARIPE/PE para comercialização.

Assim como Dona Socorro, o agricultor Francisco Barbosa, também ligado à ECOARARIPE/PE considera que a coleta de sementes de árvores nativas da Caatinga como uma estratégia de geração de renda. “Já vendi algumas vezes em eventos e feiras, mas estamos entrando num projeto da ECOARARIPE/PE para vender direto para os mercados digitais”, afirma.

Agricultor Francisco Barbosa (ECOARARIPE/PE) em árvore nativa da Caatinga (Oiticica). Município de Exu, Sertão do Araripe/PE.

Em entrevista ao portal UOL, o renomado economista José Alexandre Scheinkman destacou o papel estratégico do Brasil no enfrentamento da crise climática global a partir do reflorestamento. Segundo ele, o reflorestamento da floresta amazônica surge como uma das soluções mais eficazes, rápidas e de menor custo para mitigar o aquecimento global, superando até mesmo os investimentos diretos na redução de emissões de CO₂.

Scheinkman também alerta que cerca de 40% das emissões de carbono do Brasil têm origem no desmatamento. Ou seja, o simples ato de interromper o desmatamento já seria suficiente para reduzir quase pela metade as emissões nacionais de gases do efeito estufa, reforçando o impacto direto da política ambiental sobre os compromissos climáticos do país.

O estudioso observa que o controle do desmatamento esbarra em interesses políticos e econômicos, com grupos que se beneficiam da destruição da floresta exercendo forte lobby para impedir regulamentações mais rígidas. Ele defende que a vontade política é essencial para frear a degradação ambiental e avançar em iniciativas de reflorestamento, especialmente em um momento em que o Brasil tem a oportunidade histórica de liderar uma agenda global de enfrentamento à crise climática.

Em repostas a esse cenário, Fábio Santiago, que coordena o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, explica que o apoia as diversas iniciativas nas Unidades Familiares Produtivas (UFPs) nos territórios de atuação da ação têm contribuído para reduzir os efeitos sobre as mudanças climáticas, como os consórcios do algodão com culturas alimentares e forrageiras, as criações de pequenos animais e abelhas, as frutas de época, as sementes de árvores da Caatinga e adubação verde, assim como contribuído para o avanço na cadeia de valor com o óleo de gergelim, tahine, pasta de amendoim, óleo de girassol, entre outras.

Fábio Santiago (Diaconia) em campo consorciado de algodão agroecológico com culturas alimentares. Comunidade Quilombola Lagoas, município de São Raimundo Nonato/PI.

“Tudo isso dialoga com a conservação da Caatinga. A manutenção da paisagem da Caatinga e, ao mesmo tempo, a recomposição da vegetação são estratégias fundamentais para o sequestro de carbono. Isso é explicado pela eficácia de segurar mais carbono que a Caatinga apresenta. Aliado a isso, as atividades nas UFPs estão à luz da certificação orgânica participativa, ou seja, não se pode utilizar a queimada como prática de cultivo, desmatamento, uso de produto químico sintético e uso adequado de resíduos sólidos. Essas atividades reduzem as emissões de gases de efeito estufa”, explica.

Além disso, Santiago explica que essas ações vêm contribuindo para a diversificação sustentável da renda das famílias agricultoras à luz da questão climática. “A renda vem avançando sem a necessidade de práticas que dialoguem com a derrubada da Caatinga. É a partir dessas estratégias que vamos continuar apoiando os Sistemas Participativos de Garantia (SPGs), de modo a mitigar as emissões dos gases de efeito estufa, participação e envolvimento social e acesso a mercados pelos SPGs. Ainda tem muita coisa a fazer, como possibilidade de renda para as famílias agricultoras sobre o Bioeconomia da Caatinga. Precisamos da Caatinga em pé, mantida e em processo de recuperação. Vamos focar em apoiar os SPGs nesses segmentos”, afirma.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó.  No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.