Coleta, seleção, armazenamento e comercialização de sementes da Caatinga: Uma estratégia para recuperação da paisagem e geração de renda das famílias agricultoras do Semiárido
Por Acsa Macena
Além de fortalecer a economia local, a coleta e comercialização de sementes nativas conservam o bioma e despertam a atenção de novos mercados
Sementes coletadas, selecionadas, embaladas e rotuladas pela ECOARARIPE/PE.
No Sertão do Araripe, interior de Pernambuco, a coleta de sementes da Caatinga tem ganhado força entre agricultoras e agricultores familiares. Espécies como umbu (Spondias tuberosa), ipê-amarelo (Handroanthus albus), jurema-preta (Mimosa tenuiflora) e angico, (Anadenanthera macrocarpa) que antes passavam despercebidas, hoje são fonte de renda, conservação ambiental e valorização de saberes tradicionais.
É o caso da agricultora Maria Socorro, ligada à Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe (ECOARARIPE), que recentemente colheu 6kg de sementes de jurema-preta (Mimosa tenuiflora). Ela conta que foi um processo trabalhoso, mas recompensador: “Não é uma semente muito fácil de colher porque é uma planta espinhosa, requer muito cuidado. É um processo lento de colheita. Foi um grande aprendizado e incentivo para continuar, já que conseguimos comercializar 4 kg a mil reais”, afirma.
Sementes de jurema (Mimosa tenuiflora) preta comercializadas pela ECOARARIPE/PE.
A renda extra virou reserva para emergências e motivou a continuidade da atividade, que evita qualquer impacto ambiental e não necessita de regime de chuvas regulares, como demanda o roçado de sequeiro, por exemplo: “Não precisamos desmatar e nem gastar tempo com preparo de terra. É só monitorar o tempo das árvores e fazer a coleta”, afirma.
Além da jurema-preta, Dona Socorro destaca que neste ano já colheu sementes do umbu, ipê-amarelo, favela, jurema-preta, angico. Brevemente colherá canafístula (Cassia grandis), umburana de cheiro (Amburana cearensis), imbiruçu (Erythrina velutina), embiratanha (Sebastiania hispida), aroeira (Schinus terebinthifolius) e outras que virão de acordo com o tempo de floração e colheita.
Ela destaca o cuidado que se deve ter em cada etapa do processo de coleta: “Temos que colher a semente na época certa, quando está bem madura já para parte de secagem ou já secas na árvore, porque elas abrem e voam, como o ipê e a umburana de cheiro. Secar na sombra, depois que tira a semente da vagem, para não correr o risco de ela ter problema de morfo”, explica.
Agricultora Maria Socorro e árvore da jurema-preta (Mimosa tenuiflora). Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe/PE.
A coleta, seleção, armazenamento, rotulagem e comercialização de sementes nativas da Caatinga é uma atividade que tem ganhado força entre as associações rurais de certificação orgânica participativa no Semiárido brasileiro. A agricultora acredita no potencial da atividade se estabelecer como fonte estável de renda.
“A comercialização das sementes pode se tornar uma renda sustentável para muitas famílias. O apoio necessário é que as famílias tenham o mercado para comercializar, mas também tem a questão da capacitação porque muitas estão aqui na região da Caatinga, mas não conhecem bem as fases desde a coleta à comercialização de sementes”, afirma.
Sementes de jurema (Mimosa tenuiflora) preta comercializadas pela ECOARARIPE/PE.
Com longa trajetória na agroecologia e manejo de sementes, a agricultora relata que já sabe fazer a coleta, a quebra de dormência, além de entender o tempo das sementes, a profundidade de plantio e o tempo de germinação. Ela acredita que aos poucos, a percepção entre as famílias agricultoras da região estão mudando ao ver que a coleta é financeiramente viável: “Muitas não acreditaram porque não tinha mercado, mas agora tem”, afirma.
O Grupo Caiçara foi o responsável pela compra dos 4kg de jurema-preta, comercializados através da ECOARARIPE/PE. De acordo com o engenheiro agrônomo William Batista, responsável pela qualidade das sementes, o material recebido atende aos padrões técnicos e comerciais esperados pelo mercado.
Ele destaca que saber que essas sementes contribuem diretamente para a geração de renda das famílias agricultoras e para a conservação da Caatinga reforça ainda mais o compromisso do grupo com práticas sustentáveis: “Damos muita importância a isso, porque sabemos que a Caatinga foi muito desmatada ao longo dos anos. E de certa forma, ao comprar essas sementes, estamos colaborando com as comunidades que permanecem no bioma”, afirma.
A Diaconia, por meio do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, tem atuado no fortalecimento de 7 Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) distribuídos por 7 territórios em seis estados do Semiárido brasileiro. O projeto tem priorizado o acesso a mercados para a diversidade de produtos agroecológicos cultivados pelas famílias agricultoras.
Esses SPGs são responsáveis por realizar a conferência da qualidade orgânica nas Unidades Familiares Produtivas (UFPs) para geração do selo brasileiro de produção orgânica. Um desses grupos é a ECOARARIPE-PE, do qual faz parte a agricultora Maria Socorro, que tem se destacado na coleta e comercialização de sementes nativas da Caatinga. Segundo a presidente da ECOARARIPE-PE, Adeilma Silva, a proposta de investir na coleta, seleção, armazenamento, rotulagem e comercialização de sementes da Caatinga surgiu a partir de uma provocação durante uma reunião de Planejamento, Monitoramento e Avaliação (PMA) do Projeto/Diaconia.
“Fábio abordou esse ponto da diversidade que temos na Caatinga e que poderia ser mais uma fonte de renda para as famílias. Daí começamos a conversar sobre a comercialização dessas sementes. Vimos que poderíamos estar avançando em mais uma oportunidade de mercado que vai nos fortalecer cada vez mais”, afirma.
Florada da Jurema preta (Mimosa tenuiflora). Comunidade Queimada da Onça, município de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara/PI.
Para Adeilma, a certificação orgânica participativa não apenas garante o selo da produção orgânica, mas também fortalece o envolvimento das famílias agricultoras com a conservação do bioma e com a construção coletiva do conhecimento. Ela vê a atuação do SPG como uma base sólida para o avanço da cadeia de sementes nativas, mas reconhece que ainda há obstáculos a enfrentar.
“A logística é, sem dúvida, um grande desafio que temos que enfrentar constantemente. Outro desafio é conseguir que mais pessoas consigam acompanhar e desenvolver tudo que já vem sendo feito”, afirma.
Apesar das dificuldades, ela enxerga um caminho promissor pela frente, com mais participação, diversidade e autonomia para as famílias agricultoras: “As perspectivas são muitas. Por exemplo, realizar vendas de todas as variedades, garantir a participação de membros do SPG, e que cada família possa realizar seu sonho”, explica.
De acordo com Márcio, consultor do Projeto/Diaconia, destaca o papel estratégico das sementes nativas em ações de restauração ecológica. Segundo ele, o momento é favorável e os coletivos sociais têm papel decisivo nessa estruturação.
“O papel das organizações como os SPGs é fundamental para estruturar essa cadeia de abastecimento e coleta de sementes da Caatinga com base na confiança, transparência e no conhecimento local. Esse conhecimento está muito ancorado a regiões específicas, tanto do bioma quanto das espécies, promovendo uma conservação ambiental”, afirma.
Além do impacto ambiental, Marcio destaca que há uma dimensão social e econômica importante envolvida: “Atrelado a isso tudo tem a geração de renda que permita ao agricultor/a fazer essa atividade e permanecer na área dele/a como guardiã/o.”
Márcio explica que a proposta do projeto é articular os diversos coletivos envolvidos na coleta de sementes, “capacitando sobre técnicas de coleta, seleção, armazenamento, identificação das espécies, épocas de floração. Esse conhecimento já está na ‘genética’ do/a agricultor/a, e é isso que estamos tentando organizar”, afirma.
Além dos canais físicos de comercialização, a Diaconia tem apoiado a abertura de lojas digitais como estratégia para ampliar o alcance dos produtos da agricultura familiar. A ECOARARIPE-PE, por exemplo, terá sua própria loja no Mercado Livre, integrando o mercado virtual às práticas agroecológicas. A iniciativa faz parte do esforço do projeto para estruturar toda a cadeia das sementes nativas, da coleta à comercialização e diversificação de canais de venda.
Uma resposta à crise climática – Diante dos cenários extremos provocados pelas mudanças climáticas, o bioma Caatinga, muitas vezes subestimado, tem ganhado destaque como aliado estratégico na mitigação dos efeitos do aquecimento global. Ao mesmo tempo, iniciativas locais vêm se articulando para enfrentar esse desafio a partir de soluções sustentáveis, enraizadas no conhecimento agroecológico e na valorização da biodiversidade.
Nesse contexto, o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia tem se mostrado uma importante resposta a esse momento crítico. A seguir, o coordenador do projeto, Fábio Santiago, apresenta um artigo de opinião em que analisa os impactos das mudanças climáticas, o papel da Caatinga no sequestro de carbono e a importância de estratégias como o manejo agroecológico e a produção de sementes nativas para a recuperação ambiental do Semiárido nordestino.
Fábio Santiago (Diaconia) em campo consorciado de algodão. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim-PE.
Desde a era pós-revolução industrial, a temperatura média global vem aumentando. Foi estabelecido que esse aumento médio não ultrapasse em 1,5 ºC, condição totalmente desfavorável à vida na terra. Essa meta foi proposta até 2030. Em 2024, foi registrado o ano mais quente da história desde as anotações pós-revolução industrial. E nesse ano a média global de aumento de temperatura atingiu 1,55º C. Vem sendo evidenciado extremos climáticos em todo lugar do mundo, com elevadas temperaturas nos verões e precipitações que vêm promovendo enchentes e outras catástrofes ambientais. Ou seja, a meta para 2030 de não ultrapassar a média global de 1,5º C foi atingida em 2024.
Ao mesmo tempo, se estabeleceu uma meta para 2050 que o balanço das emissões de gases de efeito estufa fosse neutralizado, ou seja, a quantidade de emissões seja igual aos mecanismos de segurar a pegada de carbono. Os principais gases que vem elevando a temperatura da atmosfera são o dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O). Para efeito da estimativa das emissões dos gases de efeito estufa, há uma conversão em CO2 equivalente. Esses gases têm a propriedade de segurar o calor e potencializar o efeito da elevação da temperatura na atmosfera.
É importante entender o ciclo do carbono na terra. A maior reserva de carbono fóssil do planeta é o oceano, enquanto o solo fica em segundo lugar devido a matéria orgânica e a biomassa. É possível dizer que o estoque carbono do solo é quase duas vezes mais que o ar e a vegetação. Após a revolução industrial, a nossa matriz principal energética foi e ainda continua sendo o carbono fóssil. Esse pode ser exemplificado em vários segmentos da indústria automobilística, na produção de fertilizantes e agrotóxicos químicos sintéticos e combustíveis, entre outros. Ao mesmo tempo, o desmatamento e as queimadas também são responsáveis em alavancar as emissões de gases de efeito estufa.
O que aconteceu de fato? Mudamos os estoques de carbono do planeta e aceleramos o desmatamento e as queimadas. O resultado disso é e elevação das emissões dos gases de efeito estufa, e consequentemente a elevação da temperatura média global. A maioria dos cientistas com seus modelos revela que o aumento da temperatura média da terra à patamar acima de 1,5 ºC é limite para continuidade da vida terrestre. Agora estamos na missão de promover uma mudança na matriz energética, que isso levará tempo, e ao mesmo tempo a redução do desmatamento e as queimadas. Tudo isso para mitigar as emissões e promover as adaptações com as mudanças climáticas.
O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, onde o desmatamento e as queimadas correspondem a 50%. O seguimento da energia fóssil lidera as emissões, enquanto a agricultura é em segundo lugar. Por outro lado, os biomas brasileiros com a Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e a Caatinga representam os estoques de carbono como vegetação.
Nesse segmento, temos a fotossíntese das plantas como uma “indústria vegetal” em retirar o carbono da atmosfera e produzir compostos orgânicos para as plantas como “alimento”. Ao mesmo tempo, as plantas usam a respiração celular para metabolizar esses compostos e liberar energia para suas atividades metabólicas e há a volta do carbono para a atmosfera. Nesse mecanismo de produzir (fotossíntese) e liberar energia para as atividades das plantas (respiração) é possível segurar mais carbono que liberar. Isso é que chamamos de sumidouro, ou seja, os biomas atuam como verdadeiros estoques de carbono. Tudo isso tem um efeito na mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
Depois do Instituto Nacional de Semiárido (INSA), agora é a vez da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) – Campus Jaboticabal – em revelar a importância da Caatinga para o sequestro de carbono no contexto brasileiro. O artigo de pesquisadores da Unesp comparou duas bases de dados de emissões de gases de efeito estufa e identificou que, em anos de maior precipitação, o bioma brasileiro nordestino da Caatinga respondeu por quase metade da remoção do Brasil de elemento causador das mudanças climáticas. A Caatinga ocupa em torno de 10% da área geográfica em termos de bioma, e ao mesmo tempo no estudo é responsável por quase 50% do estoque sumidouro de carbono no Brasil.
É neste contexto que temos de aprofundar o debate em zerar o desmatamento ilegal e as queimadas da Caatinga. Há mais de três década venho estudando o solo da Caatinga, e é impressionante a dinâmica do carbono do solo quando em manejo agroecológico. Os dados revelaram que a incorporação continuada de resíduos vegetais por no mínimo quatro anos é possível obter estoques de carbono no solo maior que em áreas de vegetação nativa da Caatinga, e ao mesmo tempo a matéria orgânica maior que 2,7%. E que todos os modelos de correlação entre indicadores de qualidade do solo mostram que, quando se atinge esse patamar, os demais indicadores, como a capacidade de troca catiônica (CTC), encontram-se elevados, e a densidade do solo, desejável.
Além disso, há aumento na capacidade de retenção de água no solo. Agora, temos a comprovação científica sobre o potencial da vegetação da Caatinga em segurar carbono e contribuir para redução das mudanças climáticas. Isso é fundamental para que possamos propor a formulação de políticas públicas em manter e recuperar a paisagem da Caatinga.
Portanto, vamos nos próximos anos do Projeto apoiar os 7 SPGs/OPACs a partir dos agricultores e agricultoras e assessoramento técnico com um amplo processo de formação de coleta, seleção, armazenamento e comercialização de sementes da Caatinga, que envolverá espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas. Além disso, a ideia é fazer sistematizações escritas e vídeos de forma pedagógica.
Essa estratégia dialoga com avanço das possibilidades de renda a partir dos coletivos sociais e com a necessidade atual de recompor a paisagem da vegetação da Caatinga à luz da redução dos gases de efeito estufa e os produtos da bioeconomia. A biodiversidade da Caatinga é gigante e tem muito a ver com seu mecanismo de eficácia de segurar carbono. Impressionante a produção de fotossíntese (produção de material vegetal) quando o início da estação chuvosa.
Temos um longo caminho de potencializar esse conhecimento dos agricultores/as sobre as sementes da Caatinga. Já estudamos bastante sobre a qualidade do solo em regimes mais diversos dos sistemas produtivos. Agora é escalar isso em paisagem e promover a recuperação da vegetação em áreas degradadas e em processo de desertificação e nas nascentes. Nos próximos anos, teremos uma demanda alta por sementes da Caatinga para escalar a recuperação vegetal e a produção de mudas.
Há várias empresas procurando sementes da Caatinga para fazer esse tipo de recuperação vegetal em paisagem à luz da compensação ambiental. É um mercado expoente e queremos apoiar os SPGs/OPACs nesse segmento. Há um caminho técnico para a produção de sementes, assim como jurídico à luz da comercialização. Esses são os nossos desafios do presente e futuro com os SPGs/OPACs com o bioma Caatinga.
Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó. No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.

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