Do plantio ao mercado digital: saiba como produtos agroecológicos de associações rurais de certificação orgânica participativa chegaram até o e-commerce
Por Acsa Macena
Iniciativa fortalece a agricultura familiar, promove a agroecologia e conecta consumidores/as de todo o Brasil com alimentos saudáveis
Gergelim fracionado orgânico produzido pela ASAP/PE, Sertão do Pajeú-PE.
Do Sertão do Pajeú, em Pernambuco, para todo o Brasil: a Associação Agroecológica do Pajeú (ASAP-PE) lança sua loja oficial no Mercado Livre, uma das maiores plataformas de e-commerce da América Latina. A novidade representa um passo importante para a agricultura familiar da região, ao ampliar os canais de comercialização e conectar diretamente consumidores e consumidoras com alimentos agroecológicos e com certificação orgânica participativa e saudáveis.
Os produtos oferecidos na loja virtual da ASAP-PE são oriundos dos consórcios agroecológicos do algodão com culturas alimentares e plantas de adubação verde. São certificados através do funcionamento do Sistema Participativo de Garantia (SPG), o que assegura a qualidade orgânica. A iniciativa, apoiada pela Diaconia, integra estratégias mais amplas de fortalecimento da produção agroecológica e geração de renda com sustentabilidade.
Segundo Jucier Jorge, assessor técnico da Diaconia, que tem apoiado o fortalecimento da ASAP-PE, os cuidados para garantir a qualidade dos produtos começam ainda no campo. “Primeiro, garantir a colheita no tempo certo, quando os frutos estão no período de maturação adequado. Depois disso, fazer a limpeza para tirar grãos chochos, por exemplo, e garantir um local adequado e limpo para armazenar a produção”, afirma.
Plantio de gergelim consorciado com algodão na Unidade Familiar Produtiva (UFP) da agricultora e presidente da ASAP/PE, Joana Darck. Assentamento Jacu, Sertânia-PE.
Ainda segundo Jucier, depois que os produtos chegam na Unidade de Produção de Alimentos (UBA), “toda a produção é lavada, colocada para secar e umidade adequada de beneficiamento. Depois disso, os produtos são beneficiados, seguindo as normas da vigilância sanitária do município. Ocorre o envasamento, rotulagem e vai para a comercialização”, detalha.
Limpeza dos grãos de gergelim na UBA da ASAP-PE durante oficina da Diaconia, Assentamento Santa Rita, Serra Talhada – PE.
A Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP-PE, localizada no município de Serra Talhada, tem sido um elemento-chave nesse processo. Erickson Macena, também assessor técnico da Diaconia, destaca a importância da estrutura da UBA para garantir a segurança e a boa apresentação dos alimentos.
“A estrutura da UBA tem desempenhado um papel fundamental na melhoria da apresentação e da segurança dos alimentos ofertados, especialmente a partir do processo metodológico adotado pela Diaconia, que investiu tempo e recursos em capacitações. Com isso, agricultores/as foram qualificados para todas as etapas do beneficiamento. A manipulação ocorre em ambiente higienizado, com cuidados no uso dos equipamentos e respeito às boas práticas de fabricação. E mais: os alimentos são provenientes da certificação orgânica participativa, reconhecida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o que reforça nosso compromisso com a saúde dos/as consumidores/as e com a sustentabilidade.”
Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) da ASAP-PE, município de Serra Talhada, Sertão do Pajeú-PE.
Já para Marcio Baptista, consultor da Diaconia que apoia a prospecção de mercados dos 7 SPGs/OPACs apoiados no Semiárido, a escolha do Mercado Livre foi estratégica. “Escolhemos o Mercado Livre por ser uma plataforma conhecida, acessível, com grande alcance no Brasil, além de oferecer segurança, estrutura logística e sistema de pagamento prontos. Isso facilita muito para iniciativas como a nossa. A criação da loja virtual é uma ação transformadora: abre novos canais de venda direta, valoriza a produção agroecológica, aproxima campo e cidade e mostra que é possível gerar renda com sustentabilidade e justiça social”, afirma.
Óleo de gergelim produzido pela ASAP/PE.
Amendoim fracionado orgânico produzido pela ASAP/PE.
Além da logística e da plataforma, Marcio reforça a importância da comunicação e divulgação. “Estamos investindo em fotos e descrições atrativas dos produtos. Também planejamos ações em redes sociais, parcerias com influenciadores, degustações e kits temáticos. Isso fortalece nossa identidade como produtores/as agroecológicos/as e amplia o alcance dos nossos produtos”.
Produtos da ASAP/PE disponíveis no Mercado Livre.
Para Joana Darck, presidente da ASAP-PE e agricultora, o momento é histórico e reforça a força da agricultura familiar no Sertão. “É um grande avanço e desafio. Para a agricultura familiar, um SPG/OPAC estar nessa plataforma é muito gratificante. Ver que o produto da nossa roça está saindo para o mundo é emocionante. Sabemos que estamos no caminho certo. Isso garante que tenhamos uma renda e permaneçamos no campo com uma vida saudável. Também estimula que mais famílias se insiram na ASAP. Vemos que os/as agricultores/as estão mais animados/as a produzir outros alimentos, para além do algodão, e estão enxergando caminhos para comercializar toda a sua produção. Isso incentiva mais famílias a participarem.”
Segundo Fábio Santiago, coordenador do Projeto/Diaconia, esse momento histórico representa um longo caminho percorrido para a materialização da primeira loja digital dos 7 SPGs/OPACs apoiados na região semiárida do Nordeste. “A ideia é que cada associação tenha a sua loja. Primeiro, tivemos que buscar o financiamento para a implementação da UBA que dialogasse com a vigilância sanitária e que pudesse avançar na cadeia de valor dos outros produtos dos consórcios agroecológicos com algodão, como o gergelim, amendoim, girassol, feijão, sementes de adubação verde, milho e outros. Isso é uma resposta de mais de vinte anos que os agricultores e agricultoras pleiteavam. Ao mesmo tempo, tivemos que promover um robusto processo de formação com os técnicos/as e agricultores/as para a transformação de matérias-primas a produtos beneficiados (tahine, pasta de amendoim, óleo de gergelim, óleo de girassol, entre outros).
Outra dimensão importante destacada por Santiago é que o conhecimento está nas mãos dos/as agricultores/as que fazem o beneficiamento. “A metodologia que utilizamos é o ‘aprender fazendo’. Além disso, criamos um sistema de registro de informação (planilha de excel) que pudesse controlar o funcionamento da UBA, como a entrada de matéria-prima, adiantamento, custos diretos, pagamento a equipe de processamento e gestão, precificação, faturamento, valor agregado, entre outros. O próximo passo é avançar para um aplicativo que seja mais interativo e fácil na entrada de informações. Isso é fundamental nas tomadas de decisão pela ASAP-PE. Isso também servirá para os outros SPGs/OPACs apoiados pelo Projeto”, explica.
Para Fábio Santiago, a loja digital da ASAP-PE também representa um passo largo para alavancar o processo de comercialização dos produtos processados na UBA. “É dar visibilidade e universalizar o acesso para os consumidores e consumidoras, de modo fortalecer a entrada de uma associação de certificação orgânica participativa no mercado formal com a sua marca e a história da agricultura familiar com agroecologia, conservação do meio ambiente, geração e distribuição de renda, justiça de gênero e apoio à juventude”, diz.
Sobre os próximos passos para alavancar a visibilidade desse amplo processo de possibilidades de mercado para diferentes públicos e lugares que vão além do estado de Pernambuco, Santiago reforça a necessidade das estratégias de marketing, visando impulsionar o engajamento de pessoas à loja e à marca da agricultura familiar. Além disso, o projeto também apoiará várias frentes de acesso à comercialização.
“Isso ajudará na elevação e distribuição de renda, haja vista que a maioria das marcas vêm de empresários/as que se encontram na parte de cima da pirâmide financeira brasileira. A ideia é com o marketing atingir uma meta de no mínimo 200 pessoas comprando todo mês ou a cada dois meses na loja digital da ASAP-PE. Isso é fundamental para retroalimentar a produção no campo e o funcionamento da UBA. O nosso desafio prioritário é esse engajamento. Estamos pensando em apoiar a produção de kits promocionais com os produtos da UBA, com frete acessível para todos os estados da federação. Isso será um marco diferencial. E estimular as pessoas envolvidas com a nossa rede de trabalho ao acesso à loja digital da ASAP-PE. Ademais, estamos nos organizando para promover a rodada de negócios no território do Sertão do Pajeú-PE. Isso poderá promover o engajamento de redes de compras locais aos produtos da UBA da ASAP-PE”, explica.
Conheça alguns dos produtos disponíveis:
- Óleo de Gergelim Extra Virgem (250ml) – R$ 42,00 Prensado a frio, puro e orgânico. Ideal para saladas, molhos e uso cosmético.
- Tahine (250g) – R$ 45,90 Puro, denso e sem aditivos. Excelente para receitas doces e salgadas.
- Amendoim Orgânico In Natura (200g) – R$ 22,00 Sem aditivos, perfeito para lanches saudáveis.
- Gergelim Integral Orgânico (200g) – R$ 22,00 Rico em fibras e minerais, ótimo para saladas, pães e sobremesas.
- Pasta de Amendoim Integral (240g) – R$ 36,00 Feita com 100% amendoim, sem açúcar ou óleo. Cremosa, nutritiva e versátil.
Compre com propósito e apoie quem faz a diferença
Consumir da loja da ASAP-PE é mais do que adquirir produtos de qualidade. É participar de uma rede de transformação no campo, fortalecendo a agroecologia, a autonomia das comunidades rurais e a conservação do meio ambiente.
A loja já está no ar, com condições especiais e possibilidade de frete grátis conforme a quantidade de compra e o local do estado.
Clique aqui e acesse a loja da ASAP-PE no Mercado Livre.
Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó. No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.

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