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Saiba como a adubação verde está mudando a agricultura familiar no Sertão do Araripe-PE


Por Acsa Macena

Entenda como o apoio técnico e organização coletiva tem contribuído para que agricultores e agricultoras do Sertão de Pernambuco aumentem a produção, regeneração do solo e garantam renda com a técnica da adubação verde.

Agricultora Maria do Socorro e família seguram mucuna cinza em campo consorciado de algodão. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe-PE.

No sertão de Pernambuco, onde o clima é desafiador e a terra muitas vezes parece estéril, a agricultora Maria do Socorro e sua família, do município de Parnamirim, encontrou na adubação verde e no apoio coletivo um novo caminho para a sua produção e renda.

“Aqui a terra era muito improdutiva, muito compactada”, relembra Dona Socorro, caminhando pela roça que hoje floresce com diversidade de culturas como algodão, alimentos e adubação verde. A virada começou quando ela passou a integrar a Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe (Ecoararipe-PE) e participar das formações e do acompanhamento promovido pela Diaconia, que apoia mais 6 associações rurais de certificação orgânica participativa no Semiárido.

Agricultora Maria do Socorro em campo consorciado de algodão. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe-PE.

“Aí veio a técnica de usar as plantas adubadeiras… começamos a plantar feijão de porco, crotalária, mucuna… E o resultado foi aparecendo. Fizemos análise de solo e está cada vez melhor”, afirma.

Com essas práticas, a agricultora viu não só o solo se regenerar, mas também sua renda crescer. No último ano, a família comercializou mais de 120 quilos de sementes de adubação verde, o que gerou uma renda de R$ 3.500,00. “Todo ano a gente garante uma renda extra, e isso vai melhorando muito a vida da família”, comemora.

Sementes de mucuna cinza. Assentamento Laranjeiras, município de Parnamirim, Sertão do Araripe-PE.

Protocolo de regras e boas práticas e acompanhamento técnico

Segundo o assessor técnico da Diaconia, Jucier Jorge, é possível perceber que as famílias agricultoras estão se apropriando do conhecimento compartilhado, demonstrando atenção aos detalhes no cultivo. Esse avanço é resultado de um amplo processo formativo, que une o saber científico sistematizado pela Diaconia à experiência prática vivida pelas famílias no campo.

“Foi aplicado o protocolo de regras e boas práticas do algodão em consórcios agroecológicos: espaçamento entre plantas, número de mudas por espaçamento, uso de plantas de adubação verde como a mucuna preta e a mucuna cinza… Tudo isso aumentou a qualidade do solo e a produtividade”, afirma.

Além do manejo adequado, o uso de sistemas de irrigação foi essencial para manter a produção mesmo com a irregularidade do regime de chuvas. “Sem essas práticas, a família não teria conseguido produzir esse ano”, reforça Jucier.

Organização coletiva e comercialização justa

Para além da produção, a organização coletiva foi decisiva para garantir o escoamento da produção e preço justo. É o que explica Adeilma, presidente da Ecoararipe-PE. “Recebemos um pedido, por exemplo, de 100 kg de feijão de porco. Se cinco famílias têm, a gente divide para que todos vendam coletivamente. Isso dá segurança para plantar, porque sabem que vão comercializar”, explica.

Ela ainda destaca que o apoio do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia, tem gerado mais confiança e autonomia entre as famílias agricultoras. “As famílias diziam: ‘tenho medo de plantar e não vender’. Hoje elas dizem: ‘vamos plantar, porque a Ecoararipe/PE e a Diaconia estão com a gente’”, diz.

Para Dona Socorro, o maior orgulho é ver sua terra dar frutos e sua família envolvida nesse processo: “A força da família está aqui. Somos nós que cuidamos. Estamos com essa felicidade de ver o resultado. Mesmo sendo tão seco, a gente consegue produzir aqui no sertão de Pernambuco”, afirma.

Assista o vídeo e veja como é possível transformar a realidade no campo com solo fértil, renda digna e esperança renovada.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada pela Diaconia e tem apoio financeiro da Laudes Foundation através do IDH – Sustainble Trade Initiative, da V. Fair Trade, Instituto Lojas Renner e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No incentivo à gestão e disseminação do conhecimento, o Projeto é parceiro estratégico do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE e da Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). Ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/IBA/Governo do Paraguai, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Projeto Algodão Agroecológico Potiguar no Rio Grande do Norte. A área de atuação é em 7 territórios e 6 estados na região semiárida do Nordeste do Brasil. Há colaboração com ONGs locais (Instituto Palmas – Alto Sertão de Alagoas, ONG Chapada – Sertão do Araripe/PE­ e Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – Sertão do Piauí) para a expansão do cultivo do algodão consorciado e fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) – Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o assessoramento técnico está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó.  No Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Apodi (RN), a Diaconia mantém escritórios e atividades e se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.